| Viegas Fernandes da Costa |
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As "Páginas de Terra" de Mia Couto
(Viegas Fernandes da Costa)
Outro dia uma amiga, Aline, chamou-me a atenção para a obra de
Saramago, por ambos degustada: "uma arquitetura" - definiu. Tive que
concordar, Saramago é o arquiteto da prosa, como o foram também
Kafka e Dostoievski. Ao ler "Todos os Nomes", do mestre português,
minhas impressões me remeteram ao romance (seria correto assim chamá-lo?)
"O Processo" e ao conto "O Artista da Fome", ambos de Kafka,
por exemplo, bem como me devolveram aos sentidos a prosa dostoievskiana de "Crime
e Castigo". Associo todos nesta fala de Aline: arquiteturas, sim, pelas imagens
que compõem, e são, por isso, textos plásticos. Mas apesar
deste início, não é sobre estes três autores que quero
escrever hoje. E se a alguém frustrei, peço desculpas.
Ocorre que estou entusiasmado, melhor, encantado, com um livro intitulado "Terra
Sonâmbula" e escrito pelo autor moçambicano Mia Couto, pseudônimo
de António Emílio Leite Couto. Encantado porque desconheço
os segredos de se escrever como um ourives, eu, que na literatura uso do machado
- de lenha mesmo, não do Assis. "Terra Sonâmbula" é
assim, uma peça de ourivesaria, cada frase cuidadosamente lapidada e encaixada
pelo humanismo deste escritor cuja obra há muito me indicavam, mas que
só agora meus olhos resolveram conhecer. Neste romance desfia-se a prosa
de um poeta de rara sensibilidade, desde a primeira página o percebemos.
Em entrevista que concedeu há algum tempo, ele mesmo o disse: "nunca
abandonei a poesia. Não se deixa a poesia se se é realmente poeta.
Escrevo em prosa mas por via da poesia". De fato, em "Terra Sonâmbula"
a prosa é o veio por onde corre o lirismo de um escritor cujos olhos recaem
sobre seu povo e sua história. A história de uma terra estuprada
pelo colonialismo português e de um Moçambique destruído pela
guerra, onde "os viventes se acostumaram ao chão, em resignada
aprendizagem da morte", como escreve já no primeiro parágrafo
deste seu livro.
Assim como Xanana Gusmão, poeta timorense que militou na guerrilha de esquerda,
Mia Couto posicionou-se politicamente integrando os quadros da Frelimo (Frente
de Libertação de Moçambique), movimento de guerrilha anticolonial
de inspiração marxista que se transforma em partido oficial depois
da independência, em 1975. Foi atendendo às orientações
da Frelimo que Mia Couto abandonou o curso de medicina e ingressou no jornalismo.
Desencantado com o jornalismo, estudou biologia e dedicou-se à literatura,
onde não abandonou suas posições políticas. É,
portanto, uma literatura engajada esta que Couto escreve, sem, no entanto, tornar-se
panfletária. Seu engajamento é com a cultura do sudeste africano
e com a divulgação da luta do povo moçambicano pela sobrevivência
e na construção de uma nação. É também
uma denúncia, como quando fala o personagem Tuahir: "Foi o que
fez esta guerra: agora todos estamos sozinhos, mortos e vivos. Agora já
não há país."
Neste sentido, "Terra Sonâmbula" se insere em um contexto modernista,
quase uma rapsódia à "Macunaíma", de Mário
de Andrade. Ao buscar elementos das muitas mitologias tribais, das lendas e dos
causos regionais, de um português com seus machimbombos, quizumbas, xicuembos,
xipocos enriquecendo nosso vocabulário, contribui para a construção
de uma identidade nacional moçambicana e nos mostra a riqueza cultural
e folclórica de uma África que não conhecemos pelos noticiários
internacionais.
"Terra Sonâmbula" conta a história do velho Tuahir e do
"miúdo" Muidinga, refugiados da guerrilha que, caminhando
por uma estrada abandonada, abrigam-se em um machimbombo (ônibus) destruído
pelo fogo. Ao sepultarem os mortos que estavam no veículo, encontram pelo
caminho uma mala com os onze cadernos de Kindzu, personagem que, através
destes escritos, narra sua história póstuma. O romance se desdobra
então em dois planos: o primeiro, em terceira pessoa, narra a história
de Tuahir e Muidinga em sua luta diária pela sobrevivência, e a transformação
deste último de menino em homem; já o segundo, narrado geralmente
em primeira pessoa, é a história de Kindzu contada por ele mesmo
em seus cadernos. São assim, onze capítulos e onze cadernos que
nos apresentam a guerra, a dor, o amor e a esperança por meio do sonho.
E talvez seja este o sentido da literatura de Mia Couto, cultivar o sonho nos
"viventes que se acostumaram ao chão". É o que
diz o xipoco (fantasma) a Kindzu em um dos diálogos do livro: "
- O que andas a fazer com um caderno, escreves o quê? / - Nem sei pai. Escrevo
conforme vou sonhando. / - E alguém vai ler isso? / - Talvez. / - É
bom assim: ensinar alguém a sonhar."
E é isto, eis meu entusiasmo com "Terra Sonâmbula", outra
arquitetura literária e verdadeiro manifesto humanista de um autor comprometido
com sua terra, seu povo e sua cultura. Talvez por isso encerre o livro dizendo:
"Então, as letras, uma por uma, se vão convertendo em grãos
de areia e, aos poucos, todos meus escritos se vão transformando em páginas
de terra". A mesma terra africana que abriga a esperança de um
futuro, apesar de tudo.
(Blumenau, 27 de março de 2005)
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