A Garganta da Serpente
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Vânia Moreira Diniz
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A Quem falamos?
(Vânia Moreira Diniz)

A quem falamos quando não queremos nos dirigir a ninguém tão poderoso como um Deus, qualquer que seja, nem tão impotente como nós, pessoas humanas? A quem nos dirigir, quando toda a potência da alma meio perdida, meio guardada em nós mesmos, pede socorro e ao mesmo a tempo agradece pelas regalias da vida?

A quem nos dirigir?

Tenho encontrado tantos momentos de alegria que quase peço desculpas às pessoas que não tiveram essa ventura. E também os instantes devastadores, que pensei que fosse me afundar no seu abismo. Hoje estou nesses dias em que tudo se afigura difícil, e nos perguntamos a razão de viver.

Caminho sem rumo, procurando, na poesia da natureza a força e a energia que se desprendem.E sinto, no perfume de todos os seus elementos, o segredo suave e maior para que a vibração volte e eu consiga vislumbrá-la na densa expectativa que se perdeu. Sei que esse é só um lapso tão rápido como o espaço de um pensamento ao outro. E, mesmo assim, me confunde com o seu poder.

No ponto de observação em que me coloco, em que a alma distante observa em perspectiva todo o movimento da humanidade, nas suas lutas, fraquezas, entusiasmos e orgulhos tão inconsistentes e explosões de gênios incoerentes, gestos de bondade altruísticos e o egoísmo ferrenho, sinto em mim, todas essas coisas que, juntas e densas constituem o meu mundo interior.E quero me libertar de quaisquer coisas que formem grilhões que me obriguem a ficar presa e estática enquanto a progressão de cada dia se manifesta. Quero a libertação de meu próprio ser, a certeza que caminho sem interrupções e sobressaltos. E a certeza que chegarei lá!

Faço um passeio imaginário à volta do universo e encontro tantos carentes em todos os sentidos que me envergonho desse momento de fraqueza. Sinto-me privilegiada e às vezes isso me leva a um sentimento estranho de estar usufruindo tudo o que grande parte de meus companheiros de estrada não podem fazê-lo. Penso também nos deficientes em todos os sentidos, que não conseguiram o pleno apogeu físico ou mental. Aqueles consumidos pelas AIDS ou pelo câncer, ou que sofrem pela impotência de resolver a dor dos próprios filhos que não tem o que comer. E os que se encontram sozinhos em asilos, hospitais ou cuja casa é a rua sem abrigo nas noites, frias e perigosas.

E agora já me dirijo um ser superior, agradecendo a vida, a família e os amigos. E pedindo mesmo na minha imperfeição interior que consiga cumprir nessa vida uma missão de mais amor e menos egoísmo.


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