A Garganta da Serpente
Veneno Crônico crônicas
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Meu pai, meu Orgulho

(Tania Montandon)

Como poderia homenagear a referência exemplar de minha vida se esta é a própria homenagem à minha vida?

Pai, tu te lembras quando me apertou com força contra seu peito quando saí morrendo de frio da piscininha e disseste que eu poderia contar contigo até debaixo d’`água? Naquela época em que eu parecia um ratinho e ficava tão quentinho no teu colo enquanto meu queixo batia e a boca roxeava? Eu lembro. Hoje não diria que posso contar contigo debaixo da água, mas fora dela, tenho provas incontáveis de que sim, eu posso. Já debaixo da água, aproveito pra dizer que tu podes contar comigo, fica mais coerente, né ?

hehe, brincadeiras à parte, o que é um pai, qual sua função, o que significa um pai para uma filha? A escola tentou me dar essas respostas, a religião tentou, a vida tentou... Mas as respostas que encontrei e que adotei somente as pude perceber dentro de mim, do meu coração, das minhas memórias, de todas as vezes que perdi o fôlego de emoção compartilhada contigo, todas elas, das melhores às piores. Importante mesmo foram todos nossos momentos juntos, rindo, chorando, jogando, trocando idéias, aprendendo e, por vezes, até ensinando.

Pai, tu sabes que foste meu primeiro professor? Sabes que continuas a ser meu herói, meu ídolo, cuja vida e história tanto me orgulham e fazem-me sentir que sou privilegiada? Quem tem um pai baiano que é sempre pontual, que cresceu na miséria descalço, estudou, trabalhou responsavelmente e administrou tão perfeitamente o ambiente em que viveu que conseguiu dar aos filhos o que nunca teve chance de ter, vivenciar, experimentar, deu todas as oportunidades a seu alcance para que os filhos tivessem educação digna, aprendessem o que quisessem, brincassem até não poder mais na verdadeira infância feliz e inesquecível? Quem tem um pai que se dispôs a levar seus filhos pequenos todos os anos em aventuras longínquas e de cultura diferente para que sua prole pudesse conhecer, conviver e visitar, muitas vezes, os avós, tios, primos, ainda que economizasse todo o ano pra proporcionar esses encontros e outros divertimentos que, para si, não era tão agradável, mas o que não fez este homem pra ver os filhos pularem de alegria, viajarem, conhecerem praias e tantos lugares? Bom, é verdade que nem todas as noites atendeu aos pedidos de contar histórias, estas tão melhores que quaisquer outras, pois eram improvisadas na hora e mostravam o mundo em que foi criado, com fazendas, onças, macacos, passarinhos...

Pai, tu te lembras quando esteve presente nas festas da escolinha do primário, nos meus aniversários, nas ocasiões mais importantes de minha vida, no dia em que ganhei meu primeiro troféu de tênis, no exame de faixa do tae kwon do, no lançamento do livro que muito sonhei e você o fez tornar-se de sonho à realidade e também quando mais precisei, lá debaixo do oceano, do outro lado do globo? Eu lembro! Por tudo isso e muito mais, agradeço com todo o amor que transborda de meu coração querendo tanto mais agradecer sem saber como.

Pai, nunca poderei retribuir como mereces tudo que fizeste por mim, porém ao menos preciso que saiba que reconheço tua dedicação, as superações de tuas limitações e tanta ternura , segurança, conforto, cultura me propiciaste.

Obrigada , papai, por ser o melhor do mundo! Desculpe por não ser tão boa filha como mereces!

“Quase todas as histórias de sucesso e de fracasso já foram vividas por alguém. O que muda são os nomes das pessoas, o lugar e a época.”
(Carlos Prates, colaborador do Jornal O Rebate)

Meu pai, numa única vida, viveu inúmeras vitórias, fracassos, experiências indescritíveis em várias, épocas, lugares e com todas as emoções possíveis.

Por isso digo com convicção: - pai, sinto muito, não posso te homenagear, tu és a própria encarnação do que conheço como homenagem à minha vida.

Com amor,
Tania

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