A Garganta da Serpente
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Sobre as sociedades de controle
(Tania Montandon)


As sociedades disciplinares procedem à organização dos grandes meios de confinamento. Estes visam concentrar, distribuir no espaço, ordenar no tempo e compor no espaço-tempo uma força produtiva com efeito superior à soma das forças elementares.

Esse modelo sucede as sociedades de soberania, cujos objetivos eram mais do que organizar a produção, decidiam sobre a morte mais do que geravam a vida. Eram extremamente repressores. Napoleão marcou a transição de um modelo ao outro.

Após a Segunda Guerra Mundial, a sociedade disciplinar encontrou uma forte crise generalizada a todos os meios de confinamento, em que toda a agonia acarretou o surgimento de um novo modelo de organização – as sociedades de controle, que designa a sociedade atual.

Como exemplos, na crise do hospital como meio de confinamento, a setorização, os hospitais-dia, o atendimento a domicílio puderam marcar de início novas liberdades, porém também passaram a integrar mecanismos de controle que rivalizam com os mais duros confinamentos, o que merece já uma nova reflexão.

Os confinamentos são moldes, distintas moldagens, mas os controles são uma modulação, como uma moldagem auto-deformante que mudasse continuamente a cada instante. Numa sociedade de controle, a empresa substituiu a fábrica e tornou-se a alma do sistema.

A situação de empresa pode ser adequadamente expressa através dos jogos de televisão idiotas. A fábrica constituía os indivíduos em um só corpo, sendo cada elemento vigiado; e a massa coletiva formava sindicatos mobilizando a resistência. Já a empresa introduz sempre uma rivalidade inexplicável como sã emulação, excelente motivação que contrapõe os indivíduos entre si e atravessa cada um, dividindo-o em si mesmo.

Nas sociedades de disciplina não se parava de recomeçar, enquanto nas de controle nunca se termina nada, a empresa, a formação, o serviço sendo os estados metaestáveis e coexistentes de uma mesma modulação, como que de um deformador universal.

As sociedades disciplinares possuem dois pólos: a assinatura que indica o indivíduo e o número de matrícula que indica sua posição numa massa. Já nas sociedades de controle o essencial é a cifra, uma senha, ao passo que as disciplinares são reguladas por palavras de ordem. A linguagem numérica do controle é feita de cifras, que marcam o acesso à informação ou à rejeição. O dinheiro exprime bem a distinção entre as duas sociedades, vista que a disciplina sempre se referiu a moedas cunhadas em ouro. A velha toupeira monetária é o animal dos meios de confinamento, mas a serpente o é das sociedades de controle. Este é mais esperto atualmente, sutil, embora não menos poderoso e perverso.

O homem da disciplina era um produtor descontínuo de energia, enquanto o homem do controle é mais ondulatório, que funciona num feixe contínuo. As antigas sociedades de soberania manejavam máquinas simples, alavancas, roldanas, etc. As sociedades disciplinares recentes tinham por equipamento máquinas energéticas. As sociedades de controle operam por máquinas de informática, cujo perigo passivo é a interferência e o ativo à pirataria e introdução de vírus. Além de uma evolução tecnológica, é , mais profundamente, uma mutação do capitalismo.

O serviço de vendas tornou-se o centro ou a “alma” da empresa. O marketing é o instrumento de controle social, forma a raça impudente de nossos senhores. O controle é de curto prazo e de rotação rápida, mas também contínuo e ilimitado, ao passo que a disciplina era de longa duração, infinita, contudo o homem endividado.

A inaptidão dos sindicatos das sociedades disciplinares permite compreender a progressiva implantação de um novo regime de dominação. Os sindicatos eram ligados por toda sua história à luta contra disciplinas ou nos meios de confinamento. Será que conseguirão adaptar-se ou ceder lugar a novas formas de resistência contra as sociedades de controle no futuro próximo? Será que já se pode apreender esboços dessas formas por vir, capazes de combater as alegrias do marketing? Os anéis de uma serpente são ainda mais complicados que os buracos de uma toupeira. Cabe aos jovens se conscientizarem disso e escolherem a que desejam servir e ao que desejam aspirar. É do que depende o futuro da sociedade.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS.:
  • Post-scriptum sobre as Sociedades de Controle, Gilles Deleuze visitar link
  • Globalização e Sociedade de Controle visitar link
  • Sociedade de Controle visitar link
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