A Garganta da Serpente
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Nossos velhos
(Taís Luso de Carvalho)


À tarde, assentei meus olhos nuns escritos: Senectude, de Marco Cícero, filósofo de escrita elegante, mas com ímpetos um pouco patéticos, ao falar da alma humana, dos velhos e da morte. Fiquei um tanto desconfortável... Mas fiquei a refletir, pois todos convivemos com idosos, sejam nossos pais tios, sogros, cônjuge ou amigos.

Confesso que não gostei de ter lido aquilo e nego-me em admitir que a perspectiva de morrer seja natural para os velhos. Não por acreditar na nossa perpetuação, sei que somos finitos, mas por ter a consciência de como e em que circunstâncias os velhos se aproximam do fim. Nenhum velho desapega-se da vida de uma maneira natural, aceitando, conformado, o que lhe é arrancado com brutalidade. Eles calam, silenciam, encobrem. Mas eles pensam, sentem e, quando a sós, choram...

Enquanto estiver existindo lucidez, existirá o instinto de conservação, o apego à vida.
Não contradigo, no entanto, que os velhos não possam perceber a morte, porém não com resignação, mesmo acreditando que possa existir outra vida - se é que existe.

Fiquei longo tempo a pensar na morte, o que não me foi nada agradável. Mas isso se deu pelas minhas recentes perdas: meus pais. Penso que o ato de morrer deveria vir como um presente, como uma dádiva - se é que Deus existe -, sem sofrimento e sem dor, tanto para os que vão, como para os que ficam. Até como recompensa por nossos velhos terem sido corajosos, por terem trilhado caminhos tortuosos ou vivido, alguns, numa festança quiçá equivocada. Seria um ato de misericórdia D'Ele. Se assim fosse, amenizaria um pouco nosso sofrimento. Porém não é a realidade e, por outro lado, jamais enfrentaríamos tal despedida com naturalidade.

Desde sempre o homem procurou acreditar em um Deus. Ter fé é como ter um coringa; é sorte e um privilégio. Os homens sempre foram em busca de um Deus, seja em Cristo ou venerando o Sol, a Lua, enfim, a vários elementos onde um ser superior pudesse ser representado com grandeza e perfeição para atenuar nosso 'morrer' ou nossa 'passagem'. O ser humano sempre precisou acreditar na perpetuação da vida através do espírito. Não importando o caminho. Confesso que eu ainda não sei de nada, até gostaria de acreditar em algo... Porém, se ao ter lido aquele trecho de Cícero fiquei com uma sensação desconfortável, mais tarde recuperei-me com a paz e a doçura de Gilberto Freyre: "venha doce morte... não, a morte não é doce, mas peço a amarga morte que ela venha docemente...".

Seria um sonho se assim fosse: tanto para os que têm fé como para outros que ainda buscam encontrar a sua paz.
Espero, porém, quando meu dia chegar, quando meu olhar tiver o brilho opaco da despedida, ter a doce ilusão de que a morte não me venha tão amarga, que me toque docemente e, sobretudo, com compaixão.

  823 visitas desde 30/09/2008 Publicado em: 30/09/2008  

   
 

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