Os novos-ricos
(Taís Luso de Carvalho)
É muito engraçado ver as extravagâncias dos novos-ricos.
Ainda mais aqui no Brasil onde a maioria é sobrevivente. Dinheiro, aqui?
Hum... Mas eles dão a impressão de que tudo o que ostentam vêm
de berço.
Os cachorros dos 'novos ricos' usam jóias, freqüentam manicura,
pedicura, tosa, modelista... E uma visita do 'decorador top', para transformar
a nova casa numa mansão de luxo, cavar uma piscina e sair na 'Caras',
já é esperada.
Seguem-se algumas visitas aos antiquários e galerias de artes. Se não
houver a figura do decorador, os quadros continuarão no velho esquema
de combinarem com o sofá, com as cortinas e almofadas. Ainda não
deu tempo para as criaturas soltarem as amarras do passado e assimilarem o presente!
Sim, porque os novos-ricos estão com o passado em suas entranhas, apesar
de freqüentarem os melhores restaurantes, se estrebucharem atrás
de grifes, comprarem a famosa bolsinha 'Louis Vuitton'...
Bom gosto não se compra com dinheiro, por isso se vê tanta extravagância...
Os velhos amigos voam! Os novos-ricos têm interesses diferentes, um deles
é explodir como mais uma 'socialite' nos céus desta pátria
amada / idolatrada / salve, salve...
Para os homens valem outras coisas, mas não menos engraçadas:
carrinho importado, tecnologia avançada, o laptop mais caro do mercado,
celular de ouro, caneta de ouro... E bebida! E na bebida, a maior exigência
fica por conta do 'vinho'.
O bebedor rico, metido a 'enólogo', trata o vinho como se fosse a sua
eleita, e fica aloprado ao entrar numa adega. Muito esquisito isso.
O 'ritual do vinho' dos novos-ricos é interminável, só
perde para o chá de japonês: cinco horas de preparo.
Você nunca beberá com um emergente: no mínimo terá
é uma aula estressante.
Não tenho um tiquinho de paciência, mas aprendi tudinho! Vou passar
algumas coisinhas pra vocês...
Para os deslumbrados, o vinho tem de ser degustado e seus mistérios
desvendados... Olhem que coisa romântica! De minha parte, nunca consegui
essa intimidade com o vinho. Terei algum problema genético?
Para eles, a temperatura do vinho tem de ser exata: o excesso de temperatura
poderá deixar o vinho agressivo, pouco agradável, como o inverso
fará com que o vinho adormeça, neutralizando o aroma e sabor.
Nossa!
A melhor safra é a do ano tal, da uva tal, da vinícola tal. O
melhor cálice é o de cristal sem emenda - liso e com silhueta
de tulipa - para poder girar o vinho, feito carrossel mexicano. Isto fará
o vinho respirar e soltar os aromas. E assim ser cheirado inúmeras vezes,
no intervalo de cada garfada.
A idade é importantíssima: sendo vermelho rubi, é um vinho
jovem; vermelho acastanhado, vinho mais envelhecido. Então você
decide se quer um 'véio' ou um 'novinho', frutado ou com gosto de madeira.
Você tem de amar o vinho! Ser-lhe fiel! Beber pensando nele: sentir se
é encorpado ou leve; se generoso, aveludado, rascante... Mas se for um
vinho 'filante' (doente), o cara morre! O estudo técnico de um vinho
é como um 'Processo de Software'.
O vinho sempre será o prato principal; o resto será coadjuvante.
Após cada garfada de comida, gire o cálice, mergulhe o nariz na
taça, não todo, uma narina de cada vez, bem devagarzinho. E, entre
uma narigada e outra, prepare-se para conhecer as uvas sauvignon, merlot, pinot
noir, pinotage, chardonnay, gewürztraminer...
Mil vezes tomar uma cervejinha gelada, curtir a turma, encher o copo dos amigos
para ter companheiros alegres e de boa prosa, do que ter alguém preocupado
com o preço do vinho e falar na rolha, na taça, no sabor, no cheiro,
na uva, na cor, na
acidez, na idade, de onde veio e, ainda, ver aquela taça rodopiar centenas
de vezes... E de olho na garrafa, feito cão de guarda.
Mais um pouco será estudado o sexo da bebida, uma vez que uva é
feminino e vinho é masculino...
Mas então, gente, é isso aí; foi só uma introdução,
não vou parar por aqui, o assunto é infinito!
Os homens também fazem das suas: não compram uma 'Louis Vuitton',
não enfeitam os cachorros, não fazem questão da 'Caras',
mas quando 'emergem' um pouquinho ficam loucos por coisas que ninguém
entende. Em vez de beberem, apaixonam-se por um ritual que pede lindas taças
de cristal, liso, com silhueta de tulipa... E sem emenda! Não seria melhor
beber, heim? Mas no final, tudo é a cara do Brasil: a gente acaba entendendo!
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Publicado em: 02/06/2008 |
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