Natal
(Taís Luso de Carvalho)
Finalmente, flagrei meu inconsciente: muitas das coisas que acontecem na nossa infância têm um valor muito significativo, outras, porém, adquirem uma dimensão desproporcional ao acharmos que são grandiosas, quando na verdade sua importância é bem menor.
Apostamos que nossos melhores Natais aconteceram na infância, como se nela tivesse ficado, também, o melhor de nossas vidas. Natal é emoção: e o que conta são nossas carências, nossas buscas, nossas frustrações ou nossos sonhos. Querendo ou não, o 25 de Dezembro é o receptáculo para todas as emoções reprimidas. Os sentimentos afloram como se estivessem na primavera... Tempo e lugar não importam diante da verdade de cada um. Muitos gostam do Natal, outros preferem as festanças do Ano-Novo. Não importa o motivo. Importante é se queremos comemorar ou ficarmos quietos e pensativos, apenas. E isso também é saudável; dar liberdade aos nossos sentimentos e às nossas manifestações. Cada um faz o seu Natal, isso é respeito.
Pensando e repensando a infância, percebi que colocamos nela mais o concreto do que o teórico; mais os presentes do que os sentimentos; mais um outdoor do que uma foto três por quatro. Tudo é fora de medida, mas esse rebuliço é normal. Depois crescemos e o equívoco se desfaz.
Lembro-me que na véspera do Natal passado recolhi várias roupas fora de uso, coloquei-as numa sacola e saí. Andei com o sacolão por vários quarteirões. Encontrei uma florista arrumando sua humilde banca, com um nenê no colo e um menino excepcional deitado sobre um capacho sujo. Perguntei-lhe se queria as roupas e, com um acanhado sorriso, respondeu-me que sim. Coloquei a sacola pertinho da criança doente, sobre o capacho sujo. O menino me olhou e sorriu como se estivesse vendo uma fada-madrinha. Passei minha mão sobre sua cabecinha, comovida com aquele sorriso ingênuo e sem mágoa da vida. E retomei meu caminho. Mas minha retina já havia fotografado a imagem daquela criança, e num dia de Natal...
Antes de atravessar a rua senti um leve toque em meu ombro. Era a florista; num gesto tímido e agradecido, ofereceu-me uma singela rosa branca desejando-me um Feliz Natal e com muitas bênçãos de Deus. Minha garganta ardeu: no esforço de sufocar uma lágrima engoli uma amarga saliva. Se isso tivesse acontecido num dia comum penso que minha reação teria sido diferente. E talvez a dela também. Mas era Natal! Por si só esta data é mágica e nos conduz aos mais nobres gestos e sentimentos.
Saí pensando na atitude da florista e o quanto seu gesto me sensibilizou. E voltei pra casa com os olhos marejados.
Diante disso não tenho o porquê pensar nos Natais de minha infância. Quando adultos, a troca afetiva é o prato principal; os presentes passam a ser apenas o molho...
À noite, coloquei a minha rosa branca num lugar de destaque: marcou presença e enfeitou a minha noite de Natal.
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Publicado em: 24/12/2007 |
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