A Garganta da Serpente
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Falando a verdade...
(Taís Luso de Carvalho)


Quando perdemos um ente querido, somos comunicados, de imediato, da parada funcional de algum órgão vital, seja por morte natural ou acidental. Mas morte pode ter outros significados: talvez alguns, com alma de poeta, vêem isso com mais clareza.

A rigor, pensamos na pobre viúva (o), nos filhos e, em pouco tempo já não se pensa mais no fato visto como isolado, imprevisível, como todos são a princípio. Passa a ser mais um dos tantos casos que fazem parte "do destino", por pior e mais traumatizante que tenha sido o acontecimento.

Tudo começa igual, com algumas exceções. Após o falecimento, vem o "desfazer-se" das roupas do falecido, distribuídas entre familiares, empregados e instituições; tudo com muito pesar e lágrimas. Fotos são inevitáveis: abre-se o baú e descobrem-se fotos de nascimento, namoro, noivado, das férias inesquecíveis, das bodas de prata, de ouro ou, quem sabe, de diamantes. Revive-se, nesse momento, situações há muito esquecidas.

O primeiro mês é um tormento, vê-se a pessoa falecida em todos os cantos; sua poltrona predileta, seu terço, seu livro de cabeceira, sua xícara... E fala-se de seus defeitos que, agora, passam a ser virtudes... Se, por ventura, a pessoa tenha adquirido alguns bens ao longo da vida, chora-se ao olhar o seu computador, chora-se ao ouvir seu som, seu celular, olhar seu chinelo... Seus pertences tornam-se algo penoso de suportar. Tudo tem uma conotação afetiva; e tudo permanece onde sempre esteve.

Passado algum tempo, as 'coisas' começam a trocar de lugar: a cadeira já vai pra outro canto, a cama é colocada na outra parede, o livro vai pra dentro da gaveta, o chinelo vai pra empregada e a sala toma outra aparência, com cortinas novas e bugigangas compradas com a intenção de renovar, para dar prosseguimento à vida. Ninguém quer ter, por mais tempo, uma lembrança triste e constante da pessoa que se foi. Todos querem amenizar o sofrimento. E começa-se a falar de quão sua morte foi sem dor e do magnífico lugar que o falecido (a) deve estar... É um conforto. É como se procurássemos o perdão por certos
entraves que causamos a quem se foi. A maioria até que consegue ajeitar as feridas e soterrar as culpas.

E o tempo vai passando... A dor vai se indo e vai ficando a lembrança e a saudade. E isso não deixa de ser o certo, afinal, não se pode sofrer por longo tempo. Até as palavras são bonitas: lembrança e saudade! São melodiosas.

Bem, passada a dor inicial, entra uma outra realidade: a PARTILHA! Aí é que começa a dureza da nova vida: as leis e os direitos: o meu e o teu; o fifty-fifty fiscalizado; e um advogado mediando os interesses das partes. Começa o que antes nem se cogitava: as brigas pelas coisas; pelas coisinhas. Briga-se por palmos de terra, briga-se por jóias. E é nesse ponto que acontece a "segunda perda": sepultam-se sentimentos, o respeito, a amizade, a dignidade e a justiça. E tudo em nome de latarias; de trecos e cacos. Começa a mesquinharia; esta é a constatação de tantos inventários e testamentos que tenho visto por estas bandas que chamamos de Terra.

A morte física parece ser um engodo, uma provação pra ver até que ponto pode chegar o ser humano. Sordidez é algo que desqualifica, que depõe, que desmerece. Mas é próprio da nossa raça. A paz é essencial: e bendito seja aquele que consegue ver que o importante é ter apenas o necessário. O supérfluo é dispensável e em muitos casos, só serve para magoar, pra separar, pra destruir.

Partilhar deveria ser um ato civilizado, feito em paz; mas é um confronto penoso. Partilhar, na maioria das vezes é digladiar, é como se estivéssemos numa arena lutando para não morrer.

Não sei onde fica o 'Paraíso', mas acho que não é um lugar físico; 'Paraíso' é estar em paz e sem conflitos. Se for isto, deve ser lindo! E não há nada melhor do que vivermos neste mundo com a sensação de estarmos vivendo no 'Éden', deixando a mesquinharia para os pobres de espírito.

  575 visitas desde 2/05/2007 Publicado em: 02/05/2007  

   
 

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