A Garganta da Serpente
Veneno Crônico crônicas
  • aumentar a fonte
  • diminuir a fonte
  • versão para impressão
  • recomende esta página

QUE INDEPENDÊNCIA COMEMORAMOS?

(Olympia Salete Rodrigues)

Anos atrás, a 7 de setembro, comemoramos a independência do Brasil. Festas, desfiles, pronunciamentos cívicos não faltaram, apesar do desfalque nas fileiras da defesa nacional em termos de gente alistada... Foi uma medida de emergência por falta de alimento para o contingente arregimentado.

Aliás, o que não falta em nosso País é falta de alimento e medida de emergência. São tantos os buracos, que se abrem novos buracos para tapar os antigos. Mas nada se abre para tapar o buraco dolorido do estômago vazio... Tudo que se faz é paliativo, pois a fome é teimosa e, se é satisfeita num dia, amanhã volta com fúria maior. E nós, povo livre, seguimos apreciando o movimento até o dia em que o buraco de hoje se transformará num enorme buraco, pronto a nos engolir sem que haja saída. Isso dá medo? Claro que dá, pois buraco é sempre buraco, assusta sempre. Mas, apesar disso, povo valente que somos, vamos comemorar, vamos desfilar, vamos aplaudir...

E eu pergunto: que independência comemoramos hoje? Todos os anos me faço essa pergunta. E sempre a mesma resposta: A independência do Brasil, sua ignorante!... E eu não aprendo, pergunto de novo, e de novo, e de novo... É que, na minha inocente ignorância, não consigo entender o que é a independência de um País. Até onde sei, um País nada é sem seu povo. Deduzo portanto que a independência é do povo que forma o País. Mas se pergunto a alguém do povo se é independente, a resposta é sempre não.

Pare um pouco, leitor, e pergunte a si mesmo se é independente. Nem precisa dizer, eu já sei.

Poderá ser independente quem passa fome, quem depende de um salário chamado de fome, quem nem mesmo tem esse minguado salário, quem mora sob uma ponte, quem tem o que comer mas há muito não tem a mesa digna de sua dignidade, quem tem que se virar e fazer bicos e mais bicos pra garantir o pão das crianças, quem não tem um teto ou está perdendo aquele que se atreveu a comprar e não pode pagar, quem está doente e não é atendido por falta de verbas que ele mal sabe de onde vêm, quem é atendido e não pode entrar na farmácia e comprar o remédio receitado, quem não encontra vagas na escola e tem que aceitar seus filhos crescendo na ignorância, a mãe que sai pedindo ajuda e volta com o filho morrendo de inanição em seus braços... pra ao menos morrer no conforto de um abraço... Ah, esqueci de botar os pontos de interrogação. Mas os coloco agora: ?????????????????????????... e haja pontos de interrogação em nossas cabeças ditas independentes...

Mas vamos para a avenida aplaudir os desfiles, ouvir os discursos, entoar, ufanos, os hinos de sempre, agüentar a mídia repetindo e repetindo, em todos os noticiários, que somos um país independente.

Ah, esqueci de perguntar: e o FMI? Ora, que eu me cale, pra que lembrar, justo neste dia, o quanto dele somos dependentes?

Enquanto isso, todo mundo discute o sexo dos anjos, e promete tudo, como sempre. Será que desta vez será diferente? É a única esperança que podemos ter: que desta vez seja diferente... Esperança que sentimos sempre e que sempre virou uma enorme frustração. E chamamos a isso independência?

Mas a independência do Brasil, é certo isso, foi proclamada por D. Pedro a 7 de setembro de 1822. Fato histórico incontestável.

Certamente me chamarão de pessimista. Aceito. É a força do hábito. E, para confirmar, apenas lembro de mais um pequeno detalhe: daquele grito inflamado que ecoou no Ipiranga: "Independência ou morte!", parece que nos sobra a expectativa da morte... Já é alguma coisa...

Festejemos!

Eu não quero festa. Quero, sim, a realização do sonho que é nosso.

E, na minha santa ignorância, apenas lamento...


  • 1255 visitas desde 11/08/2006
Copyright © 1999-2017 - A Garganta da Serpente