A Garganta da Serpente
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AMOR DE ZERO A MIL

(Olympia Salete Rodrigues)

O amor em plenitude é tudo o que sonhamos alcançar. Nem sempre sabemos. Não sabemos porque nos acostumamos a receitas (como se amor fosse um doce, um prato gostoso, um remédio milagroso), estamos sempre esperando lições, sugestões, esboços, modelos, bulas a serem seguidas. E nada disso pode existir no amor, se o desejamos pleno. Porque amor pede para ser inventado, criado, aperfeiçoado, e nunca aceita ser tomado por completo ou pronto, o que levaria ao risco de retrocesso. E o amor, para crescer em perfeita harmonia tem que ser a quatro mãos, a correspondência é indispensável. Seja qual for o amor: o de pais e filhos, o de irmãos, o de amigos, o de companheiros de vida, não importando suas orientações sexuais, e até mesmo o amor sublimado, mais raro mas possível. E o amor, para tanto, precisa ser pesquisado, além de exigir o maior e mais esmerado cuidado.

O que seria a pesquisa no amor? Vamos falar aqui do amor a dois, o amor de um casal que se une na vida, seja homo ou heterossexual. Sabemos que a vida sexual é um esteio do relacionamento amoroso. O sexo segura uma relação, dizemos sempre. Mas sabemos também que não é qualquer sexo que tem tal poder. As pessoas se atraem mutuamente. Existe o tempo de comprovar essa atração, o que chamamos namoro. É o momento das descobertas um do outro e cada um de si mesmo: sentimentos, atrativos, apelos e respostas. Desentendimentos e rejeições devem merecer a mesma atenção dada às identificações e aprovações.

Os desentendimentos são resolvidos através de diálogo honesto e de comportamentos transparentes. Mentiras e joguinhos, infelizmente tão usuais no amor, são venenos que podem minar de vez a confiança, criando forte empecilho para qualquer acordo entre parceiros. Pessoas sérias, maduras, jamais se entregam a essas práticas. Pessoas imaturas, se as praticam, terão muita dificuldade em sair de sua infantilidade. Definidos e resolvidos os desentendimentos, aprofunda-se o diálogo, que se torna reflexão, não apenas frases de ida e volta que nada esclarecem. Num aprofundamento de ambas as partes, os laços se estreitam. Os anseios pela concretização do amor se fazem sentir mais fortes e urgentes. Porque o amor se concretiza na carne, a cada relacionamento mais exigente ele se torna. Essa primeira caminhada é em geral fascinante, farta em surpresas que, agradáveis ou não, tornam necessário o diálogo que, por sua vez, favorece a harmonização do casal. Com a impressão de que o amor cresceu suficientemente e está garantida a união, a conclusão é: nos amamos, nos amoldamos e pronto, agora basta seguirmos juntos. Em pouco tempo perceberemos que a conclusão foi precipitada. A sensação de marasmo começa a dar sinais. Se isso não é discutido, se a opção é "ir levando", em pouco tempo o tédio toma conta. Os relacionamentos continuam, mas já não despertam o mesmo entusiasmo de antes. O prazer passa a ser só o prazer do momento, não continua, não desperta mais desejo, não incentiva mais a criatividade no amor. A mesmice corre o risco de se instalar. Com certeza, o fim se anuncia.

Nosso corpo é um universo imenso e inesgotável que nunca será explorado inteiramente. Guarda mistérios pedindo para serem desvendados. Sempre encontraremos, à espera de atenção, um pedacinho do corpo que ainda não foi explorado suficientemente, que tem ainda um prazer novo ou pouco estimulado, pronto a estourar. E quando falo em corpo, a alma está implícita, porque a alma é o próprio amor, é quem cria o desejo irrefreável de dar prazer ao próprio corpo e ao corpo do ser amado. Se esse desejo é desprezado, se não encontra resposta, definha, morre de inanição. Humanos que somos, queremos sempre mais, queremos sempre o novo, aí o incentivo para a pesquisa do corpo, a ferramenta da alma na realização do prazer.

Essa pesquisa exige carinho, interesse, necessidade mesmo de encontrar prazeres novos que vençam o tédio que ameaça a relação. Exige principalmente companheirismo para que um esteja inteiramente aberto ao outro nessa busca, nessa exploração encantada do corpo. E seria impossível aqui listar as possibilidades de encontro, pois essa é a busca íntima de pontos misteriosos que só os casais podem fazer e que diferem de pessoa para pessoa. Depende de sensibilidade e de disponibilidade de entrega, atributos essencialmente individuais. Cada casal tem a sua experiência e infindáveis descobertas. E lista nenhuma é importante aqui. Importante é a disposição, a dedicação e a liberdade de cada amante. Importante é que nos disponhamos a isso e realizemos o amor em plenitude.

Essa deliciosa tarefa é para toda a vida. É esse o alimento que mantém viva uma união duradoura, como aquela que encontramos em casais que morrem velhinhos e ainda se amando "a mil", como se amaram no distante dia do encontro, o "zero" inicial.


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