A Garganta da Serpente
Veneno Crônico crônicas
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UMA CONTRIBUIÇÃO À CIÊNCIA: ACHEI O PONTO G

(Olympia Salete Rodrigues)

É tanta a discussão sobre o Ponto G que me propus a experiência de procurá-lo até a exaustão. Todas as informações a respeito indicavam que o Ponto G se situava na vagina. Parti para a busca que julgava infrutífera. De cara, a dificuldade de ver e examinar esse órgão maravilhoso e privilegiado da mulher. Realmente a natureza nos traiu, pois ele só é visto pelos nossos ginecologistas. Acho isso uma afronta aos meus direitos. Como gostaria de vê-lo em seu mistério interior, sua excitação, seus movimentos, suas reações intensas ao toque e ao olhar embevecido do parceiro! Como respeito muito a natureza e não tenho com quem brigar, aceito... Fui ao meu obstetra, sujeito muito sério, absolutamente profissional, de quem esperava uma explicação detalhada e convincente. Recebi a resposta simplista: "o ponto G não é visível, é sentido". Como algo tão importante e prezeroso não pode ser visto? Insisti: "Mas nem com aquela luzinha que você bota lá dentro?" Ele nem respondeu e fez uma cara de poucos amigos... Ele nunca gostou mesmo de minhas gracinhas...

Resignada, parti para a pesquisa do sensível. Como não tenho autoridade suficiente para ficar olhando e apalpando vaginas por aí..., comecei a pesquisa por mim mesma. Procurei em minhas reações de sensibilidade que envolvessem reações vaginais, pois era quase impossível definir o Ponto G fisicamente.

Sei que uma voz romântica, um olhar sensual, um papo sobre determinadas sensações em situações específicas, uma troca de informações sacanas, uma figura provocante, uma insinuação inofensiva, um email atrevido, um simples roçar em partes do corpo não tidas como erógenas - tudo isso, junto ou separadamente - pode me provocar orgasmos devastadores. Orgasmos sem toque... Imaginem com...

Tomemos isso no concreto. Tenho um amigo que mora no Chile e me telefona de quando em quando. Em geral, falamos amenidades, brincamos, rimos, trocamos algumas informações de mútuo interesse. Ou seja: somos apenas amigos. Em geral, quando desligo, entro em euforia, sinto que sua voz tem o poder de me deixar em paz, de me acalmar, de me comover. De fato, é uma voz macia, tonalidade extremamente agradável. Nada ele me diz que insinue algo. Nem precisa. O "algo mais" está em mim. Descobri que o "efeito calma" é pura racionalização. Sua voz fica ecoando em meus ouvidos por longo tempo, me faz rir sozinha, me desperta inspirações num repente, leva meu corpo a movimentos suaves e agradáveis, como uma dança à melodia da voz encantada. Descubro: o Ponto G está no ouvido!

Outro amigo, que mora na Ásia, fala comigo por emails há anos. Cultivamos uma amizade desinteressada. Trocamos informações diversas: sobre a vida, sobre nós, sobre qualquer assunto. Tudo com muito carinho, além da delicadeza trocada. Sempre com muito carinho e respeito. Uma ou outra palavrinha que, isoladamente, nada signifique, de repente me toca de modo especial. E eu me espanto diante de uma palavrinha especial, de cinco letras, que tem o dom de me acender o desejo! Involuntariamente visualizo a palavra escrita, letrinhas bailando em minha mente e se transformando em tesão, o apelo do corpo. Vacilo: o Ponto G está nos olhos!

Para não me estender muito, uma experiência mais concreta. Tudo real, sem telefone, sem cartas ou emails, sem frescura nenhuma. A cantada direta, como deve ser, no meio de uma conversa. Para mim um susto. Mas me recomponho e sugiro um papo a respeito. E o papo acontece recheado de olhares, o desejo crescendo, sem nenhum toque. Corpos reagindo, se empolgando. Um sim, o primeiro beijo, um banho e... cama. Ele um pouco mais novo que eu: 20 anos. Um encontro fadado a dar certo, sem amor, sem compromisso nenhum. Muita ternura, entrega recíproca dos corpos, clima de aventura. E o essencial: abertura total ao prazer, livre de qualquer preconceito. E o Ponto G saltitando pelo corpo: na nuca (quê fungada!), nos seios (mãos e boca de suaves a selvagens carícias...), na boca (beijos de lábios fechados que se entreabrem até o beijo de engolir...), nos cabelos (êpa, lá se foi meu penteado caprichado...), nos pés que se envolvem na deliciosa trama (epa, por que meu dedão ficou tão assanhado?), frente e verso, corpo inteiro enfim, cada pedacinho do corpo reivindicando a posse do Ponto G... E, na ânsia da espera pela entrega definitiva dos corpos, os gemidos, a explosão dos gritos e o sorriso final! Eu, pensando, confesso: "Alguém já viu vinte anos negar fogo?" Ele, maravilhosamente malcriado: "Como? Na sua idade?..." Reflito: "Ora, não é o tempo que conta para que os incêndios aconteçam..." Mas defino: o ponto G é enorme e abarca o corpo todo.

O relato aqui feito, levei-o ao meu ginecologista, aquele sujeito profissional e muito sério. Tentando dar minha contribuição à Ciência, declarei, definitiva: "O Ponto G não é mesmo visível, mas a resposta ao Ponto G é sempre sonora. Está no corpo inteiro e a cada sensação que arranca do corpo o Grito da alma!"

Ele sorriu... Eu sorri... Desconfiado, ele quis provas... Acabamos na cama!


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