A Garganta da Serpente
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CAVALHEIROS, HORA DE ACORDAR!

(Olympia Salete Rodrigues)

Vamos acordar, cavalheiros?
Partindo de leituras e pesquisas, ouvindo papos até sem compromisso, mas mais por conhecimento próprio e por conversas de pessoas amigas em quem confio, tenho escrito alguns textos com comentários e dicas para relacionamentos entre homens e mulheres, os maravilhosos machos e suas encantadoras fêmeas... Falei do amor na velhice, dos entendimentos no amor, das formas de comunicação afetiva, falei do amor universal, do amor adoração, do amor sexual, escrevi matérias em cartas e até em ensaios, fiz poemas - eróticos ou não, queimei as pestanas elaborando frases, quase sempre colocando em pauta o amor que, para mim, é o fundamento de tudo e o móvel da vida. Conheço uma parte de meus leitores, mas não todos, não sei se você que me lê agora já me leu. Também não sei como todas as pessoas que lêem reagem, nem sei se lêem e entendem ou se apenas passam os olhos e esquecem.

Não sou nenhuma expert, nem especialista em nada, sou apenas uma mulher que amou e ama incansavelmente. E, a cada amor, não passo de aluna e quase sempre aprendo muito.

Homens e mulheres me escrevem dizendo que concordam ou não. E todos são respeitados em suas opiniões. Há os que fazem uma crítica e comigo estabelecem diálogo até que esgotemos o assunto. E há tantos pontos comuns que resolvi abordar um deles.

É uma queixa quase constante das mulheres. Ao tempo da sedução e do amor que ainda está se firmando, elas são alvo de um amor quase desmedido, amor esse sempre correspondido. Não demora muito e o amor se estabiliza, parece estar garantido. E parece também que o raciocínio por parte dos homens é este: "pô, eu já conquistei, ela já tá mesmo no papo, pra que ficar com tanto salamaleque, gentilezas exageradas, declarações repetidas, 'te amo' pra cá, 'te amo' pra lá"?" No entanto, se a mulher esfria, respondendo na mesma moeda, vem logo uma reclamação: "Eh, qual é? não me gosta mais, belezoca?" ou "Poxa, me escreve, não sei ficar sem a sua doçura." Mas se a mulher continua se derramando, coisa muito natural na psicologia feminina, se continua entregando seu amor e, mais ainda, entregando à medida em que ele cresce, o homem não só não reclama como gosta muito. Uma observação: a mulher, em geral, cultiva o amor e, quando o entrega abertamente, cria sempre a expectativa de retorno. Um homem me disse, se justificando ou justificando a classe: " esse comportamento é coisa da psicologia masculina, é sua natureza". Eu diria melhor: coisa de machismo que, aliás, é, há séculos, uma segunda natureza no homem (e, muitas vezes, na mulher, por ignorância ou contaminação...). Há exceções, raras mas há, e a essas peço compreensão, pois estou falando de maiorias... Com as desculpas mais esfarrapadas, o homem vai negligenciando até que mesmo as safadezinhas gostosas que falava já não diz mais. As evasivas que apresentam? Muito trabalho, cabeça quente, nervos à flor da pele, até mesmo falta de tempo. Ora, para dizer "amor te quero, te desejo, tô com vontade de você, hoje com certeza vai ter", e atirar um olharzinho malandro enquanto afirma isso ou algo parecido, precisa de tempo? Para dar uma discadinha fora de hora, mandar um cartão, ofertar uma flor ou dar um tapinha traquinas na bunda dela, precisa de tempo? E a desculpa se repete: "não, é verdade, me falta tempo mesmo". Sabemos todos nós que o tempo é nosso e que o encontramos quando e se queremos.

É quando a mulher, esperando há muito por um carinho, um elogio, uma palavra doce, dando persistentemente seu tempo, seu cuidado, sua palavra de estímulo e sua doçura, vai se desanimando aos poucos, vai cismando tristezas como "ele não me ama mais", "ele não me deseja como antes", "o amor acabou e ele não diz para não me magoar"... Uma me disse há pouco: "Eu tenho saudade daquele homem que conheci. Ele é outro hoje, não o reconheço mais." Se a mulher tenta pedir, o homem adia, desconversa, ou pior, nem responde. As cismas vão ocupando espaço, passam da cabeça para o coração já dolorido, se consolidam e acabam tomando a feição da mais pura verdade. Dúvidas surgem em relação ao parceiro e ao relacionamento - e bem sabemos que as dúvidas são, em se falando de amor, o mais perigoso veneno. E, nesse vai-da-valsa, o decantado amor tão grande, tão definitivo, vai minguando por falta de alimento até morrer de inanição. E o inocente cavalheiro argumenta: "não entendi, não sei o que aconteceu... afinal, que foi que eu fiz?"

Quem já não viu acontecer essa história? Quem, entre homens e mulheres, já não chorou por um fim tão melancólico? E o que é mais grave: muitos desses amores desmoronados não se acabaram. Cada um vai para o seu lado dizendo "te amo" - e é verdade. Essa é a pior e mais cruel forma de se desfazer um relacionamento.

Para ser, como mulher, bem honesta, tenho que abordar um ponto que acho de máxima importância. O mundo mudou. A mulher foi à luta e conquistou seus espaços há muito roubados em nome de uma sociedade machista. Ora viva! Isso é muito bom, pois é apenas a justiça sendo feita. Mas a mudança foi rápida e muito abrangente. Os homens de nosso tempo, todos formados na escola do machismo, do "quem manda sou eu", foram pegos de calças curtas... A princípio até aplaudiram as mulheres pela sua coragem, mas no fundo não acreditando que a moda pegaria... E caíram do cavalo. Levantaram-se, saíram claudicando, o bum-bum doendo pra caramba, tentando se recompor e retomar seu lugar de autoridade constituída, o que de nada adiantou. Então a insegurança tomou conta e eles se renderam e até se confessaram apavorados. Mas no fundo esperavam que uma reviravolta qualquer mudasse o rumo da situação. Nada se modificou e o pavor se agravou. E esse ponto é importante porque a mulher tem que considerá-lo e ter muita calma, muita paciência. E, em geral, ela tem. Conheço mulheres que dão chances muito além da conta. Só que elas se cansam um dia. Na verdade, não é nada fácil ser mulher: ela tem que ter uma força leonina e ainda agüentar ser chamada de "o lado fraco"... A mulher que cultiva o amor e sabe seu valor, nada quer de muito especial, não quer competir com o companheiro, substituí-lo ou ultrapassá-lo. Ela quer apenas caminhar lado a lado com seu homem, quer dividir tarefas, quer partilhar emoções, quer trocar com ele experiências e sabedoria, desde que homem e mulher não são seres competitivos, mas complementares. Aliás, deliciosamente complementares!!!

Amor perfeito não existe, se existe, eu desconheço. Mas o amor tem que ser sereno, dar alegria e trazer paz. O amor não pode e não deve jamais causar dor. Ninguém, em pleno gozo de sua saúde mental, quer ver o amor fenecer. E cada casal amante, no seu cantinho, vai gerar um amor que poderá contaminar o mundo.

Se fôssemos analisar todas as implicações dessa situação tão comum, isto seria um livro, não um artigo... Por isso, acho bom pararmos por aqui. Se com esta crônica eu acordar um só cavalheiro, estarei sobejamente recompensada...

Vamos lá, Cavalheiros, consertar essa relação que está perigando. Tentem, tentem tudo se ela vale a pena. Não soneguem o amor. Se constatarem que não tem mais jeito, prestem bem atenção ao amor que vai chegar. Afinal, judiar de mulher é falta de cavalheirismo e só resultará em complexos de culpa...

Desculpem por eu tratar este tema importante com tanto bom humor. Isso não quer dizer que não enfrento os mesmos problemas que a maioria das mulheres enfrentam. Confesso: muitas vezes sou uma das queixosas... Acho que eu brinco para não chorar. Muita gente já disse que eu rio da minha dor... Não é cinismo não... é mesmo defesa da minha mente escolada...

Portanto, gentis Cavalheiros, vamos botar os sentimentos pra fora. Como mulher, eu garanto: é gostoso demais... E vamos amar, que amar sempre vale a pena!


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