A Garganta da Serpente
Veneno Crônico crônicas
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O AVESSO DO DIREITO

(Olympia Salete Rodrigues)

Eu estava escrevendo um texto para publicar. De repente, lá embaixo, o tesão. Êpa, nem tô falando de sexo!... Continuei meu trabalho. Tesão insistente. Eram 10h30. Em plena manhã? Com sol quente? Parece cadela no cio... Pensei em parar e ir pra cama. Fiquei com preguiça, preguiça da mão-de-obra do amor sozinha... Tem coisa melhor: vou lá numa sala de sexo e alguém me ajuda a dar uma gozadinha sem muito trabalho... Assim que entrei, um cara me abordou. Cara chato, estava com ciúme da mulher que fazia sexo virtual com outros. Respondi o que ele não queria ouvir, deu tchau. Anunciei para todos que estava fora do reservado, se tinha alguém a fim de voltar pra lá comigo. Apareceu na hora um candidato. Topei. Tinha esquecido de ligar o reservado e ele me pediu que o fizesse. Quê baratinho! Seu nick era aberto, trazia a idade embutida. Não perguntei nada, nem ele. Aquela coisa chata de tipo físico, de onde tecla, que idade tem... Detesto esse interrogatório, afinal é apenas uma transa virtual, que interessam esses dados todos? Sempre me parece uma forma de machismo, como se a mulher estivesse em uma vitrine. Bem, o "nick aberto" começou a conversar, era gostoso. Mas eu estava ardendo. Conversei um pouco e disse claramente que eu estava muito a fim, se ele ia topar. Topou na hora. Não topou apenas, declarou que também estava puro tesão. Aí começou a curtição, infelizmente só virtual. A transa foi simplesmente deliciosa. Eu o admirei o tempo todo. Sentindo-me saciada, aí eu é quem queria conversar, ali, aconchegados um ao outro. Ele disse que precisava sair. Decepção... Mas respondi calmamente: tá bom, então vira pro canto e dorme! Ele reagiu: não sou homem de virar pro canto e dormir. Admiração! Ficamos então mais alguns momentos nos acariciando e falando não sei bem sobre o quê... Ele explicou que tinha horário para trabalhar, por isso ia sair mesmo. Aceitei sem reclamar. Parecia-me tudo certinho, não sabia o que daria. Antes de sair ele pediu meu email. Neguei, com delicadeza, e pedi que me entendesse. Sua resposta: meu email é... Lá estava seu email. O nome no endereço. Gostei do nome. Anotei na hora. Agradeci e disse que não dava garantias de escrever. Ele saiu para o trabalho, acreditei nisso, não tinha por que duvidar, mas tinha por que acreditar: eu o sentira sincero, franco, delicado e muito gente.

Voltei ao meu texto interrompido e, tentando escrever, notei os problemas aparecendo, rápidos e pedindo soluções. O tesão de antes não tinha passado. Voltava reforçado, era apelo premente. E, na minha cabeça, aquele homem que não tinha rosto, corpo, mãos (ai que arrepio!), cor, tamanho..., só tinha idade embutida num nick que não passava de uma letra do alfabeto e um nome num endereço que até podia nem ser dele. O tesão impertinente. O desejo do prazer já é um prazer. Mas aquele desejo me incomodava um pouco, culpa daquela fantasia feita só de vazio. Resolvi dar vazão. Fui pra cama e fiz amor comigo. Mentira: fiz amor com uma fantasia sem cara, sem cor, sem tamanho, só com nome e idade. Foi um amor eletrizante, fiquei exausta como se tivesse durado horas seguidas. E, ao fantasiar o fim - o aconchego gostoso -, percebi que eu o chamara de "querido" o tempo todo. Sorri: querido como? querido o quê? Desisti de pensar: era querido nome, era querida idade, era querido e pronto. Afinal, eu não precisava me agarrar a nada, já tinha a capacidade de criar o tudo de que precisava. Nem precisava de recheio a minha fantasia.

Bem, eu estava livre para tocar o dia, cozinhar, escrever, ler. Ilusão pura. O dia foi uma continuação da manhã: tesão, cabeça cheia daquele nada que despencou em mim dentro de uma banal sala virtual. Eu mandava que ele saísse de minha cabeça... Ele não obedecia, parecia teimoso...

Bem à tardinha, resolvi lhe escrever. Não me entreguei, não contei que ele passara a tarde comigo, parecendo real. Não contei que foi tão indiscreto que me acompanhou até no banho... Não contei que, ao fazer amor diversas vezes naquele dia, minhas mãos tinham um sabor diferente, talvez o sabor das suas mãos... Não contei que saber seu nome já não importava, era apenas querido... Não contei, nem podia, pois àquela altura eu já me achava uma louca varrida... Qué isso? Não sou nenhuma menininha que encontra o primeiro amor... Quê amor? Ora, isso tudo é virtual...

Mas a resposta que recebi era real, muito real, e gratificante. Ele contou que passara a tarde comigo, também não conseguiu me expulsar de sua cabeça... E eu pensei: ele sentiu e entregou. Ah, a importância da entrega! Eu sonegara, ele não. E atrás do email um cartão, lindo, terno, sincero. Principalmente sincero. Dizia que eu era especial. Claro que acreditei. Era sincero. Eu era mesmo especial! Ele me queria. Eu o queria. Eu propusera não nos crivarmos de perguntas, irmos nos descobrindo aos poucos, na hora oportuna. Aceitou. Parece que curtiu, pois disse que queria me descobrir pedaço por pedaço. Sempre me querendo... E eu aqui me dando sem ele saber...

Finalmente, uma mensagem foi decisiva para me conquistar. Criaria uma sala especial só pra nós dois, queria que eu lhe desse o nome. Uma sala para nós dois... Vibrei e me senti rainha. Minha inspiração se encarregou do nome para a sala. É ali que vamos nos descobrir. Decidi: tenho que me entregar!

Ainda não tive a necessidade de saber como ele é, se branco, preto ou amarelo... bonito ou feio... a cor dos olhos... alto ou baixo... casado, solteiro ou mais ou menos... se tem filhos... se... se... se... Sei que ele é, isso me basta. Sei que veio para um tempo, não interessa quanto. Sei que está - sem o saber - me devolvendo uma vida da qual eu já desistira.

Faz pouco tempo que tudo começou? Não sei. Afinal, o que é o tempo? Mas faz tempo que me sinto mexida, gostando disso, mesmo quando pinta uma angústia. Não saber se o real vai acontecer um dia e ter medo do real. Não importa, vale o agora que estou vivendo com força e prazer. Meu deserto encontra um oásis. Vou matar minha sede. Gozar a nova vida.

Ainda não consigo ver tudo claro e transparente. Nem sei que nome dar a esse sentimento gostoso e confuso. Mas já consigo ver uma relação que vai se aprofundar. Nós dois estamos apenas tomando um caminho inverso do costumeiro: estamos nos descobrindo primeiro pelo avesso. Tomara que cheguemos ao direito bem direito!!!

**********

Escrevi essas minhas impressões na data registrada acima. Encontrei-a agora, por acaso. Resolvi publicá-la. Mas, não vejo sentido sem registrar o fim desse que foi meu primeiro amor virtual e que seguiu singelo até o dia do adeus. Minha intenção é mostrar que tudo é relativo, que mesmo o virtual pode ser honesto e verdadeiro.

Tivéramos um contato telefônico. Como sempre, nada sabíamos de nós. Nesse dia ele me falou que era casado e tinha um filho. Não teve qualquer palavra de queixa ou lamento. Eu não dei maior importância ao fato, afinal não era nenhuma criança. Continuamos normalmente. E nesse período nos conhecemos bem mais. E eu o admirava cada vez mais pelo equilíbrio e pela sinceridade.

Um certo dia, uma mensagem: "Não me peça explicações. Quero que saiba apenas que você foi a melhor mulher que encontrei até agora. Quando eu tomar vergonha na cara e tiver coragem de mandar a mulher que tenho embora de minha vida, é você que eu vou procurar. Se ainda me quiser, seremos felizes juntos." Assinou FF.

Foi o Adeus! O Direito sem Avesso... O que sofri ele bem mereceu.

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