A Garganta da Serpente
Veneno Crônico crônicas
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MOMENTOS QUE ME FASCINAM

(Olympia Salete Rodrigues)

Tenho, como todo o mundo, momentos inesquecíveis, aqueles que marcaram fortemente a vida, que me fizeram mudar os rumos e palmilhar caminhos novos. São momentos de meus antepassados que me foram contados e momentos que eu própria vivi. Resolvi registrá-los nesta Crônica para que não se percam no tempo. Eu os revivo e, quando eu não mais os puder narrar, certamente outros ainda os curtirão por mim.

MINHA BISAVÓ: a criança de meu bisavô
Um dia, meu bisavô chegou em casa arrasado. Tinha pulado a cerca e engravidado uma moça. Ela não queria o filho, resolveu abortá-lo e lhe comunicou a decisão. Ele se desesperou, não queria essa morte de um filho indefeso. Ao chegar em casa transtornado, relatou o fato à esposa. Ela o tranqüilizou: "você é o pai e tem direito a esse filho tanto quanto a mãe". Apresentou a solução: "ela não vai abortar, vou procurá-la e convencê-la a ter a criança e entregá-la a nós." Ele reagiu: "Mas você vai aceitar aqui um filho só meu?" E ela, determinada: "Se é seu é meu." Disse e fez, para espanto e emoção de meu bisavô. A criança, uma menina, foi criada como filha que era, na casa do pai, com amor e carinho de um pai e de uma mãe. Eu conheci essa tia de mamãe. Já morreu há anos. Isso aconteceu há pouco mais de um século. A nobreza e o amor surpreendente dessa grande mulher. E essa história me marcou profundamente. Minha bisavó, sem saber, preparando sua bisneta para a justiça e para a generosidade.

MINHA AVÓ: a heróica mãe conformada
Minha avó teve cinco filhos: duas meninas e três meninos. As meninas nasceram com a diferença de um ano apenas. Três ou quatro anos de intervalo e vieram em seguida os três meninos. As meninas já grandinhas ajudaram a criá-los. Dois deles se casaram. O caçula saiu de casa e alcançou o mundo para tentar a vida. O mais velho, antes de nascer o segundo filho, fugiu da esposa com uma outra mulher e desapareceu, nunca mais deu notícia. O segundo fez um casamento desastrado que durou poucos dias, separou-se e sumiu também. O caçula dava notícias de quando em quando até que se calou para sempre e ninguém mais soube de seu paradeiro. Vovó ficou velhinha, sempre chorando pelos filhos. Ficou doente, era grave seu estado. Ela morava comigo no mesmo quarto. Certo domingo acordei com ela falando alto: "Minha Nossa Senhora, a senhora é mãe, não me deixe morrer sem ver os meus filhos." Recorri a rádio-amadores para tentar encontrar os filhos perdidos no mundo. Nada conseguimos. Eles nunca deram nenhum sinal de vida. Vovó concluiu que, se Nossa Senhora não a atendera era porque era mesmo impossível e que certamente ela encontraria seus filhos no céu. Morreu conformada. Dias depois, um telefonema do caçula. Contou que recebera um recado de alguém e que viria ver a mãe. Disse-lhe que ela já partira. Na manhã seguinte, uma carta sob a porta dizendo que não quisera entrar já que a mãe não estava mais viva. Essa história que testemunhei me preparou para a difícil convivência com o ser humano quase sempre contraditório e muitas vezes mais egoísta que amante. E me preparou, principalmente, para o sofrimento inevitável de perder um amor para a vida, bem mais terrível do que perdê-lo para a morte.

MINHA MÃE: a economia dos selos postais
Eu adolescente, tinha uma enorme correspondência com minhas amigas também adolescentes. Não tínhamos nosso dinheiro e os selos que iam e vinham ficavam caros. E a idéia surgiu em mim, uma idéia criativa mas malandra que fazia com que os selos durassem muito mais tempo indo e vindo em nossa correspondência quase diária. Passei a idéia às amigas e todas me aplaudiram. Era apenas uma falcatruazinha que driblava o serviço dos Correios. Fiquei muito orgulhosa. Quando encontrei mamãe, estava ansiosa por lhe contar a idéia brilhante. Mamãe me ouviu calada e atenta. Quando terminei, exaltando o sucesso da idéia, ela perguntou: "E vocês continuam fazendo isso?" Eu: "Claro, direto, eu e minhas amigas." Confesso que estava esperando os elogios de mamãe que sempre me achava um gênio... Espantada, a ouvi dizer: "Mas você não vai fazer mais. Eu não quero uma filha ladra. E prometa que não vai ensinar isso a mais ninguém." Explicou que o que eu fazia era roubar o Governo. Argumentei que o Governo nos roubava também. E ouvi: "Você responde pela sua consciência, o Governo pela dele." E a idéia brilhante foi pelos ares... A honestidade de minha mãe me preparando para a retidão na vida.

AINDA MAMÃE: o poema mais lindo
Mamãe fazia seus poemas, escrevia-os em cadernos. Um dia eu li um que não conhecia e exclamei: "Que poema este, mamãe! Dos que eu conheço, é o mais lindo!" Ela me olhou com ternura e disse: "Não, não é esse o meu mais lindo poema. O poema mais lindo que eu fiz, minha filha, é você." Abracei-a emocionada. E ela continuou: "Não quero que seus irmãos saibam disso, mas essa é a verdade." E minha mãe-poeta morreu convencida disso... sem perceber que eu não passava de uma poesia literalmente de pé quebrado... Ela definia ali a base definitiva de minha auto-estima.

ALGUNS DE MEUS AMORES:
Vitor: Nos apaixonamos. Um amor bonito e algo conturbado. Doze anos de cultivo quase contínuo. Algumas dores, hoje facilmente esquecidas. Muitos momentos bonitos a lembrar. Aqui, um especial e inesquecível. Eu sempre fui muito friorenta, sofria muito no inverno. O pior era o pé esquerdo que custava muito para esquentar, mesmo com meias grossas de lã e muita coberta. Meu companheiro fazia tudo para que ele esquentasse. Quase sem sucesso. Numa noite particularmente fria, dobrou uma manta que colocou sobre meus pés já agasalhados mas rebeldes. Em seguida, debruçou-se aos pés da cama e os cobriu com o próprio peito. O efeito foi quase imediato. E em todos os invernos esse ritual se repetia quando ele estava presente. Nunca esquecerei esse carinho altruísta e a importância do calor humano que ele representa.

Tony: O maior amor, com certeza. O rei que tem um trono em meu coração e do qual eu digo: "como todo rei ele reina, mas não governa..." pois ninguém conseguiria governar minha vida rebelde. Ficou comigo pouco tempo, mas vivemos grandes e gloriosos momentos. O mais impressionante deles relato aqui. Financeiramente nossa vida era difícil. A dele mais que a minha. Um dia ele me disse: "Eu tenho vontade de ligar para você o tempo todo quando não estamos juntos. Não posso, pesa no bolso. Mas tive uma idéia. Todas as vezes que passar por um orelhão, vou ligar sem colocar a ficha. Quando você atender dará sinal de ocupado. Ouça aquele tum-tum-tum sabendo que sou eu do outro lado te dizendo: te amo-te amo-te amo." E, incansavelmente, fazia isso. Economizava as moedinhas, mas não economizava o amor. Realmente, não posso me queixar da vida...

Menino: Eu estava sofrendo muito, cansada e desanimada. A inspiração entrou em recesso e eu tinha até medo de não voltar a escrever. Tudo parecia o fim. Falei com ele sobre esse temor. Ele me disse: "vai dando um jeito nisso... sem você a poesia fica sem pai nem mãe nem puta... fica sozinha.... muda." Sorri e chorei. A inspiração voltou, graças ao poeta que nele habitava.

Ainda Menino: Falávamos no ICQ, eu lamentando ser fisicamente tão insignificante diante de sua beleza. Falei de minha estatura pequena. Sentia mesmo o que falava, desoladamente. E dele ouvi: "As pessoas se medem pela altivez... você é plena e altiva... sua grandeza não vem dos seios... mas do seu peito aberto." Fez com que eu me sentisse a mais linda e perfeita das mulheres.

SOL, meu amor de hoje: Eu, desiludida que andava, lutei contra esse amor, não queria deixar que se instalasse em mim, queria curtir nosso encontro como estávamos curtindo, sem compromisso nenhum, sem ciúme ou posse, sem a responsabilidade que o amor confere automaticamente aos amantes. Lutei muito, orgulhosa por estar driblando o amor. Mas não podia me impedir de sentir o amor crescendo em nós dois. Resolvi dar uma quase parada na vida, me recolher, me organizar e refletir muito sobre aquela invasão do amor que eu não controlava mais. Em uma semana fiz um balanço em minha vida, revi velhos amores, os realizados e os irrealizados por um ou outro motivo, até um amor que me rejeitou mas que ainda me roubava momentos de enorme bem-querer. Consegui colocar cada um no seu lugar, nunca me desfiz de um amor que acolhi um dia. Resolvi a rejeição que já não mais me incomodava, dei-lhe o lugar de direito: na linda fantasia em que eu o transformara, que eu não queria perder nem jogar fora. E, nessa arrumação, vi e aceitei o amor-Sol que se agigantava em mim. A essa altura o chamei e pedi que me ouvisse. Relatei a semana de reflexão e o resultado: "Descobri que amo você, lutei contra mas hoje me rendo e venho lhe entregar esse amor. Você pode aceitá-lo ou não. Isso não importa muito. Importa que o meu amor é seu e estou aqui para entregá-lo ao legítimo dono." E ouvi: "Eu não poderia receber maior presente." Exultei e, naquele momento, nos assumimos. E, nas mãos da vida nos colocamos e realizamos o amor, curtindo juntos as grandes e pequenas alegrias, enfrentando juntos as tempestades. A única certeza: tenho um Sol que brilha para mim, não importa se dia ou noite, se tempo bom ou ruim. E a verdade que mantenho e respeito: cada amor que vivi me preparou para o amor que ainda estava por vir e todos os amores vividos, todos os momentos de dor ou alegria, me prepararam para esse amor que me sustenta hoje e eu não quero perder nunca.

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