A Garganta da Serpente
Veneno Crônico crônicas
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Lições extraídas dos Cadernos de Neftalí Reyes (ou de outros)

(Luciana Amâncio)


(A Rafael Filipe)

A distância entre Temuco e Recife inexiste, quando o papel se deixa rabiscar por poesia. E a poesia é, sempre, inquieta e inquietante. Sempre traz com ela um pouco da luz, da ingenuidade e grandeza dos primeiros poemas...

Desde cedo aprendi a acreditar que todas as pessoas grandes e belas guardam um poema calado em algum dos cantos do peito - por isso, quando algo (alegre ou triste demais) acontece é por lá que a gente sente um aperto, uma ardência, uma palpitação, ou coisas assim.

Mas trazer poemas por dentro não é ser poeta. É ser gente. Porque não há gente sem sentidos e sentimentos... E ser poeta também não guarda nada de sobrenatural, sobrecomum, sobre-humano. Ao contrário: há um exagero de humano, essencialmente humano, na poesia. Nada de mais ou de menos. E, ainda, um abraço sincero e profundo nas coisas comuns, naturais: uma comunhão. Desta forma, aquele poema interior percebe que tem espaços para atrever-se - ou até exibir-se.

Eu não recordo de minha primeira leitura de um poema. Nem posso... deve ter acontecido em um desses momentos mecânicos, onde o texto - coitado! - é reduzido a uma reunião burocrática de palavras. Lembro, porém, de modo particularmente comovido a primeira percepção da poesia: contava uns doze anos (ou treze) e li incontáveis vezes, uma após a outra, o mesmo poema de Manoel Bandeira, "Desalento". E como aquele poema foi para mim o inverso do que anunciava! Alentou-me. Arrebatou-me para junto da poesia.

E dezenas, centenas (milhares, talvez) de poemas foram tomando assento ao lado de meu poema interior. Poemas libertos, soltos, cientes. Todos eles traziam em si nomes, experiências, sonhos de gente. Bandeira, Drummond... João Cabral, Pessoa, Cecília... Castro Alves... Camões, Florbela.... Bilac, Vinícius... Neruda. Este último, me despertou grande admiração.

Neruda foi além, muito além, dos caminhos sonhados de sucesso, de grandes realizações. E o fez somente porque fez-se poeta. Sempre poeta. E poeta em tudo, nas palavras, nos gestos, na política, na diplomacia. Em minha adolescência - quando eu sonhava sonhos de revolução -, encontrava naquele militante comunista um poeta de sensibilidade profunda, capaz de uma poesia cortante e movido por todo o amor que se pode e deve amar: amor pelos homens, pela vida, pelo mundo, por seu sonho de justiça, por uma mulher...

No entanto, não foi a biografia do Companheiro Pablo Neruda que incentivou-me guardá-lo com distinção entre os meus poetas preferidos: foi Temuco, foi a ousadia de ser Pablo(quando ser poeta lhe foi proibido e ele precisou "disfarçar"). Neruda encantou-me não por suas obras primas, mas por suas primeiras obras: era poeta (e bom poeta!) aos dezesseis anos. Rabiscava com poesia, ansiedade e sonho os seus cadernos da escola, em Temuco.

Eu tinha meus dezoito anos quando descobri este jovem Neruda. Foi meu segundo grande encontro com a poesia. Lembro ter mostrado a uma amiga um poema de título "Solidão" e dito: "sentir o mundo deste jeito aos dezesseis é possível, até provável, mas escrever deste jeito... é profético. Qualquer um que se aproxime disto aqui, nasceu para exceder em poesia e em humanidade". Aquele momento aproximou Temuco e Recife. Fez-me cuidar melhor de meus poemas tímidos e inseguros. Convenceu-me a querer da Vida que seja sempre "a escola de Temuco", onde os poemas - e a vida que deles transborda - são a melhor coisa a aprender.

(RECIFE, 03 de Setembro de 2004)

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