| Lathea |
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Drible de zagueiro!
(Lathea)
Como está difícil ver cinema, os filmes estão caríssimos.
Meu tempo ósseo me permite esse tipo de lazer, mas o meu dinheiro limita-me
a essas coisas. Por isso, que o cara duro, fica barrigudo, se joga no botequim,
arruma uma mulher que engordou quinhentos quilos de tanto comer fritura, e ele
também de tanto beber cerveja.
Isso sempre acontece quando vou à locadora.
- quanto custa o aluguel deste filme?
- custam sete reais, lançamento, e quatro e cinqüenta, os que forem
antigos. Diz o garoto blokbuster.
O fato de você ver um filme de vez enquanto, comprar uma besteirinha para
se distrair. Tentar transar com alguém, comprar cigarros, acaba saindo
mais caro. Que se você fosse um sujeito regrado, não gastasse de
mulher, cigarro, cerveja, cinema, Talvez conseguisse economizar algum. Outro
dia fui à locadora entregar um filme, na volta, parei no bar, conheci
uma menina, fomos para um motel. No outro dia, estava completamente duro!
Então relaxo, ponho um som na vitrola, deleto o prejuízo, respiro
fundo. E lá vou eu de novo a locadora, são alguns dos vícios,
que se acumulam ao longo do meu tempo ósseo. Sem falar, no controle da
TV que quebrou; a lâmpada que queimou; um novo yogurte que foi lançado;
a troca da bicicleta antiga, por uma mais moderna; o livro que ainda não
tenho. Sem contar com o apartamento e as viagens que quero fazer. Pergunto-te,
sou pequeno burguês ou estou realmente passando dificuldades financeiras.
Fico pensando, nas voltas que os políticos dão, ou seja, os rombos
econômicos milionários; será que toda essa gente, envolvida
em falcatruas, só queria ter uma TV de plasma, ou TV de plasma + um carrinho
zero + um apartamentinho em Ipanema + a vontade de ter coisas = a cara de pau.
Ser pobre é ruim pra caralho! Talvez seja o motivo de tanta roubalheira
no país? A realidade do pobre ainda mais cruel; Chevette velho + mulher
feia + cerveja belco + prestações na casa Bahia + filhos + gordura
+ dente podre = miséria.
Porque ter dinheiro? Porque ler os clássicos? Porque se fuder? Para que
serve a dureza honesta? Até que ponto se pode ter uma pobreza honesta.
Diz a classe média; quem pisar na bola vai pro xilindró. Quem
não pisa na bola vai pro SPC! Nunca quis ser milionário, mas quando
não se tem dinheiro nem pro cigarro, puta que pariu! Vós que acreditas
na democracia ficas embasbacados, com as tentações que o mundo
vip nos submete; aqueles carros sofisticadíssimos, as mulheres mais ainda.
E eu contando moeda pra comprar uma coca-cola. Nossa cultura da TV de plasma
não tolera burrice. Se o cara tiver uma chance, diz o mandamento dos
bem afortunados; mete a mão, tá todo mundo se dando bem, e você
todo fudido aí! O cara esquece as boas maneiras, aí pronto.
Não me agrada nem um pouco esse festival de CPIs, falcatruas, depoimentos
mentirosos, acho isso muito feio e sem graça, mas a de convir, que é
preciso ser um cara mau para sobreviver no Brasil, ou no mínimo, não
ser tão ingênua quanto a nossa população. Só
podia dar nisso, uma cultura mediada pela classe média, os apelos e chamativos
para o um tipo de consumo pesado, esses aparelhos eletrônicos modernos
estão cada vez mais caros. Como ser uma pessoa boa, sem ter dinheiro,
aí que mora o mistério?
Os grandes caras não tem dinheiro! São malabaristas, alquimistas,
sobrevivem sem um puto. Poucos conseguem, mas conheço certos talentos
de nosso povo brasileiro, que driblam as dificuldades, o chamado por aqui, drible
de zagueiro! Qualquer dificuldade o malandro supera, paga sua água, esgoto,
luz, no talento. Fica devendo no bar, a água, a luz, mas não deixa
de pagar, um dia ele paga. Fazem compras nas casas Bahia, dividem prestações
em mil vezes, mas pagam. Às vezes vão ao camelô e fazem
a festa. Um churrasquinho na esquina com os parceiros, eles vivem muito bem.
A casa já tem até Brastemp, GE, Cônsul e Dako, é
mole! Casa que não tem aparelhos eletrônicos, não vale nada.
Um fala já bêbado, drible de zagueiro meu cupadi! O rico não
sabe driblar. As montadoras de carros, esses que os bacanas ficam passeando,
enquanto a gente esta no ponto de ônibus, esses mesmos, pediu não
sei quantos milhos, se não eles podem falir. Os bancos com esses nomes
estrangeiros que não sei pronunciar pediram não sei quantos milhões,
se não eles vão falir. E o pobre que nunca pediu nada, como é
que ele consegue?
Não vim aqui, para julgar e nem fazer juízo desses atos fraudulentos
em que sofremos a cada dia, só estou abrindo os olhos da população.
Adotou-se a moda do discurso da mentira, que agora a sociedade vem sofrendo.
A honestidade burra que aprendemos, deriva da humildade falsa que faz com que
certos setores da população, se ressintam com o que eu acho pouco
importante; eles sempre falam mal da vida alheia. Invés, de se preocupar
com o mais grave, que desrespeita a política econômica. Eles não
identificam onde está o erro, e avaliam às estruturas de modo
vacilante. O máximo que conseguem fazer são alguns comentários
tipo; você não acha o Antônio Ermírio de Moraes feio?
E a Stephanie de Mônaco, ela é feia? O Onassis, ele não
tem mais dinheiro? Rainha Elizabeth ficou dura? Quem tem dinheiro agora? É
isso, que chamo de ódio sego; o cara não vê que não
é por aí que se constrói uma democracia! Fico pensando
que dessa maneira, continuaremos sendo massa de manobra para uma minoria que
gostaria de nos ver em situação bem pior!
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