| Lathea |
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O Show de Reggae!
(Lathea)
Eu não sei o que me deu mais, sentir-me na obrigação de
escrever essa reflexão sobre o que eu nem sei direito; queria falar algo
em relação ao universo do Reggae, sua cultura, o jeito de ser
do cara que escuta Reggae; e queria manifestar-me em uma questão, o que
eu acho uma "heresia", o comportamento de certas pessoas em um show
de Reggae.
Claro, que um show pressupõe alegria, desprendimento, comemoração.
Mais sinceramente não consigo achar interessante certos exageros que
rolam nesses shows; ou seja, muita doideira, maconha fumada em demasia. Sem
ser careta, longe daqui caretice. A de convir, que a galera tá entendendo
tudo errado, não é o fato da maconha em si, mais como ela está
sendo utilizada.
Mal começa o show, é tal de: "Get Up Stand Up: estand up
for your rights", e aperta um. A cada refrão da música, aperta
outro, e aperta outro, outro. Ninguém tá entendendo a letra; gente
o Bob Marley tá dizendo - "levante, resista, lute pelos seus direitos,
pastor não me diga que o paraíso esta debaixo da terra, a maioria
das pessoas pensam que o grande deus vai surgir dos céus, mais se você
sabe o quanto vale a vida, vai procurar o seu aqui na terra, agora você
enxerga a luz, lute pelos seus direitos". É isso cara, tudo bem
que você quer tragar a erva, mais fique ligado irmão".
Compreendo hoje que a música Reggae é definida como crítica
social é mais ou menos como Rap nos EUA. As letras falam de injustiça
social, pobres, oprimidos, escravos. Como posso ficar feliz num show assim cara.
O rastafarismo ou o rastafári é muito mais importante, deriva
do mito de Heilê Selissê imperador da Etiópia, sendo ele,
o único monarca africano de um país independente, tendo o título
de Reis dos Reis; conquistador da tribo de Judah, representado na igreja Ortodoxa
Etíope. Representante da terra de Jah. O rastafári vem do princípio:
o rei que está sendo coroado, a cabeça feita. Seria a própria
coroação de Selissê, todo rastafári, tem de alguma
forma, uma ligação ritual com essa coroação.
O movimento rastafári nasceu na classe trabalhadora e camponesa negra,
nos meados dos anos 20, sendo Marcus Garvey um dos maiores expoentes da luta
de libertação dos negros, onde a proposta era, "o movimento
de volta a áfrica"; devido os negros que foram espalhados pelo mundo,
por conta, da escravidão e dos navios negreiros que exportavam escravos
de vários lugares da áfrica. Isso é importante, porque
em relação à colonização espanhola que missigenou
e criou a raça dos marrones, que foram fortes atuantes na luta para liberação
dos escravos no tempo da colonização inglesa. Diríamos;
moderna forma de exploração. Onde o povo jamaicano, só
retornaria a liberdade, depois das revoltas de 1838. Xymaica era o nome que
os nativos Mawak nomearam o ilha; que significa terra de madeira e água.
O Anglicanismo religião majoritário da ilha, é também
curiosa, são várias religiões que se entrelaçam
catolicismo, islamismo, judaísmo. Tendo essas religiões uma influência
africana. Dependendo de cada lugar, usam indumentárias, túnicas
rituais de cada religião relacionada. Encontros místicos que incluem
tambores representando os ritmos africanos. O uso de tambores em igrejas cristas,
e é essa percussão, que faz a diferença e constitui o que
chamamos de Reggae de Raiz. Tocados nas cerimônias religiosas, tem o mesmo
efeito dos tambores da macumba, elevar o fiel ao divino, ao êxtase, hipnótico.
A mesma coisa acontece com o uso da maconha. O uso e consumo da erva são
utilizando como uma atitude ritual, ou seja, revelação da consciência
mística, fazer o sujeito enxergar outras dimensões; rituais ancestrais
muito longínquos de difícil entendimento. O rastafarismo tem elementos
rituais das tribos mais remotas da América latina. Logo, o uso de raízes
alucinógenas ou a erva, não tem uma conotação criminalizadora,
quando a maconha é usada em uma prática ritual, ela não
pode ser criminalizada; aliás, o conceito de substância criminosa
do uso da maconha, só acontece no ocidente "civilizado". Por
isso o rastafarismo não implica numa ação criminosa do
uso da substância maconha, porque em sua cultura ela tem um valor ritual.
E é isso que o jovem ocidental "civilizado" não entende.
Acho interessante o uso da erva em shows ou outros eventos porque, esse uso
tenta resgatar esse valor ritual, que diga de passagem, não existe em
nossa cultura e está longe de se igualar ao valor ritual rastafári.
Então se torna uma celebração social que quer congraçar,
socializar; nesses termos tudo bem, não tem problema algum de utilizar
a verdinha. Mais se achar um genuíno rasta, que chegou da Jamaica há
poucos dias; não entender nem, qual o fundamento dessa religião
e a cultura. Sem noção da letra da música que está
sendo executada; só para encher o ambiente de fumaça. Achar que
é mais doido do que burro; não saber geograficamente nem onde
fica a Jamaica, poupe-me! Para falar da nossa realidade, a maconha substância
ilícita proscrita pela lei, porque nossos próprios antepassados,
que nunca entenderam outras culturas, determinaram que o uso dessa substância,
seja taxada pela lei, como crime ou ato ilícito criminoso. Então,
temos uma diferença crucial, ou seja, existe um modo de uso ritual sagrado
da maconha, e um modo profano ilegal.
O rastáfari tem varias influências, bastante curiosas, as tranças-mechas
dos rastáfaris são idênticas aos cabelos dos hindus denominados
"Sanddhus", alguns deles, são profundamente espiritualizados,
mestres da yoga. Podemos ver em documentários na índia, vários
deles fazendo yoga na rua, com barbas enormes se exercitando. Alguns são
adeptos da hata yoga que é mais corporal, assemelha-se aos contorcionistas.
Podemos então chegar a uma conclusão parcial, que a Jamaica tem
uma constituição cultural muito diferente da nossa, e não
podemos achar que toda cultura é igual. Podemos adaptar certas culturas
ao nosso jeito, mais não podemos dizer que estamos tirando maior onda,
porque não estamos.
Aí eu escuto aquelas musicas: "Ambush In The Night"; atravez
da tragédia política nos mantêm com fome, quando iremos
comer algum alimento.
"Ou Babylon Systen"; nós, nós recusamos a sermos o que
vocês querem que sejamos. Vocês não podem me educar para
oportunidades desiguais falando da minha liberdade.
Ou "400 Years"; 400 anos a mesma filosofia as pessoas não conseguem
ver, eles lutam contra a juventude pobre de hoje? Eu não posso salvar
a juventude. Venha comigo te levarei para terra da liberdade.
Foi quando em um show de Reggae, eu vi a luz. Entre uma cortina de fumaça
e outra, tive uma visão. Bob Marley dizia-me - chegando a sua casa, procure
aquele vinil de nome tropicália, e põem para tocar; escuta a música
Haiti de GIL e Caetano, aí você entenderá nossa proposta.
Sofremos há tantos anos; os turistas não entendem nossa cultura,
o governo chama-nos maconheiros, os europeus andam nus em nossas praias achando
que descobriram o paraíso. Há 400 anos a mesma filosofia, as pessoas
não conseguem ver!
"E quando você for dar uma volta no caribe.
E apresentar sua participação inteligente no bloqueio a Cuba
E quando for trepar sem camisinha.
Pense no Haiti,
Reze pelo Haiti.
O Haiti é aqui
O Haiti não é aqui"
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