A Garganta da Serpente
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Amor? Não sei.
(Amato, Julio Cesar)


Certa feita em sala de aula pediram aos alunos que fizessem uma redação da qual o título questionava: "Que estranha forma de amor é essa que chega ao extremo de aniquilar a pessoa amada?"

Francamente, achei uma bobagem. Parece-me que sequer os especialistas possuem grandes conclusões consensuais, e mesmo que as tenham... De uma forma ou de outra, aí vai o que eu penso: deixemos para Deus...

O amor puro é majestosamente descrito por Paulo em 1 Coríntios 13. Bastando uma desatenta leitura do citado versículo, percebemos que, das características do sentimento em questão, não existe nenhuma tendência relacionada à morte do ser amado. Só que temos um problema: eu me reportei ao amor sem mácula, e os nossos mais nobres sentimentos muitas vezes sofrem contaminações das deficiências carnais.

Nós todos sabemos que as malfadadas imperfeições humanas possuem graus de intensidade os mais variados possíveis de pessoa a pessoa, de comunidade a comunidade, de cultura a cultura, etc. Enquanto muitos delitos são rechaçados segundo as leis em sentido lato de um lar às de um país, outras transgressões, de tão "pequenininhas" ou comuns, são aceitas ou toleradas pelos habitantes de um determinado lugar, este também em sentido abrangente. Inclusive, para o último caso, o adultério masculino é um ótimo exemplo de "gula perfeitamente normal".

Já quando alguém fala ou pensa a respeito do amor, é quase sempre idealizando o sentimento e, infelizmente, ficando ao largo de muitos casos do cotidiano. Nem todos são capazes de uma afeição imaculada, altruísta, desprovida de egoísmo ou, o que é pior, sem a possibilidade de um desejo de vingança levado ao extremo. Muitos, sob um ângulo de visão absurdamente simplista, dizem que neste ou naquele caso, entre os quais logicamente os enquadrados no tema da redação, não existe ou existiu amor.

Evidentemente, alguém decidir que a vida de outrem tem de ser encerrada não deveria ser aprovado por ninguém com um mínimo de raciocínio, mesmo por aqueles que não aceitam a Deus como o dono da vida. Entretanto, quem pode avaliar se o autor de algo tão abjeto como o assassínio amava ou não a vítima da respectiva relação amorosa? A não ser em situações claras demais, quando fazemos este tipo de análise, tentamos ser adivinhos, ou achamos que temos condições de avaliar a complexidade peculiar de cada ser humano, ou nos arrogamos a divindade. A terceira hipótese é a mais prepotente, mas todas são bizarras.

Oras, o amor que leva uma pessoa a assassinar o seu amado é aquele enlameado pelos lamentáveis e terríveis defeitos de caráter do criminoso, sobre os quais o Poder Judiciário tem a incumbência, aqui na Terra, de bater o martelo. Mas saber quem ama ou amou quem, baseando-se apenas em estereótipos, os quais nem deveriam existir? Simplesmente, os julgamentos deixemos para Deus, pois somos por demais limitados.

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Amor? Não sei.

 

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