| Josué Mendonça |
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A velha e o quadro - Reminiscências de uma visita
(Josué Mendonça)
Na minha rua, rua de infância, algum tempo atrás, havia uma casa,
onde morava uma velha que tinha um quadro. Era uma casa simples, com paredes
sem reboco, quase isolada na rua. O espaço era pequeno, talvez dois ou
três cômodos, a sala era pequeníssima. Havia também
uma mesa forrada com um pano branco bordado, em cujas bordas havia tiras, e
sobre a qual havia uma caneca. A velha era muito magra. Falava inclinando-se
para frente, quase afônica. Era tão feia que mais parecia uma assombração.
Pulei da cama durante várias madrugadas, suando frio, em virtude dessa
figura que ficou impregnada em meu cérebro tão fértil.
Tinha muito medo daqueles cabelos secos, daquelas unhas tortas e sujas, daqueles
olhos que mais pareciam buracos negros. Um dia me tocou. Paralisei. Num "estado
papel sulfite", quase não respirava. Congelei. Um dedo em meu ombro,
outro apontando para o quadro. "Aquele ali", sussurrou com uma voz
rouca e arrastada (sotaque pernambucano bem forte), "é São
Jorge". Eu não sabia quem era São Jorge. Meu profundo conhecimento
religioso aos cinco ou seis anos de idade e minha formação protestante,
por algum motivo até hoje não desvendado, subtraíram-me
essa informação. Muito menos saberia o que ela pretendia dizer
com aquilo. Meus olhos arregalados apenas o apontaram compulsoriamente. Esses
segundos foram horas. Perplexo, continuava observando-o enquanto minha alma
pedia socorro, buscando qualquer brecha pra fugir daquele recinto. Até
hoje não sei o que fui fazer lá... Acho que alguém me levou...
Sua unha continuava pesando em meu ombro. Não sei se ela percebia meu
nervosismo. Não sei se ela percebia mais alguma coisa na vida... Fiquei
ali, como que admirando o quadro, como que interessado naquela "obra de
arte". Senti quando quis explicar-me São Jorge (puxou oxigênio
das profundezas de seus pulmões onde ainda havia fôlego de vida
e fez menção de que iria realizar um discurso), mas viu meus pés
escapulindo e dirigindo-se à porta de saída e desistiu. Acho que
a frustrei. Mas não guardei peso na consciência. Tenho a impressão
de que era uma velha frustrada e uma frustração a mais não
iria causar-lhe maiores danos. Vi então a luz do sol quando abri a porta.
Nesse momento - não lembro se estava só - senti-me feliz de ver
a vida do lado de fora. Acho que aí minha cor e respiração
foram voltando paulatinamente ao normal. Ainda olhei para trás e vi a
mesa, a caneca, o quadro e a velha, olhando pra mim, não sei com que
olhar, mas metia-me medo. Saí, ufa! Acho que fui correndo pra casa. Durante
toda minha infância fiquei com medo de velhas. Sempre associava uma velha
a uma mesa branca, caneca e São Jorge. Se fosse supersticioso, não
sei o que formaria com esses belos símbolos...
Gostaria de ter associado: "eu na lua, sentado a uma mesa branca tomando
café ou chá numa bela caneca com São Jorge..." Se
tivesse feito essa associação, talvez tivesse menos pesadelos.
Mas e a velha, onde ficaria?
Ah, com certeza eu a entregaria ao dragão.
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