| Josué Mendonça |
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Fotos de casamento
(Josué Mendonça)
Eu estava lá sentado no banco da igreja vendo minha mãe casar-se
com o homem que a tornaria a pessoa mais feliz desse mundo e cujo casamento
representava o início de uma vida plena e cheia de realizações.
Eu estava lá, entregando as alianças, conversando com o vizinho
de cadeira, observando aqueles homens e mulheres testemunhando com suas sagradas
assinaturas o vínculo eterno de duas almas entregues ao amor. Eu circulava
por toda igreja. Conversava com o fotógrafo. Explicava a ele o melhor
ângulo para retratar aquele momento tão especial. Não havia
tecnologia sofisticada na época, mas havia amor, vontade, esperança,
sonhos...e isso era mais importante e, com certeza, seriam retratados mesmo
naquelas fotografias em preto e branco. Foi através de uma dessas poucas
fotografias em preto e branco que eu estive lá, consertando a gravata
meu pai, contando as horas para que fosse celebrado o matrimônio. Era
engraçado o bigode de meu pai naquela época, falo de mais ou menos
trinta anos atrás. Tudo agora está fora de moda, acho... mas naquela
época, naquele momento tudo estava belo e perfeito, tudo era esplêndido.
Se eu estivesse lá de fato, diria amém à união,
levaria os dois nos braços até o altar, talvez até derramasse
lágrimas. Não tive essa oportunidade, mas, mesmo assim, hoje posso
ir até lá e é incrível como essa viagem é
real. A fotografia captou a emoção. Benditos sejais vós
fotógrafos de casamentos. Benditas sejam vossas lentes e vosso talento.
Bendita seja vossa tecnologia porque conseguiram registrar a alma, a alma nos
olhos de minha mãe. Olhos expressivos como seriam os meus quando criança:
meigos, esperançosos, suaves, bondosos, ingênuos. Olhar sem dor,
sem mágoas, sem sofrimento algum. Ignorava as dificuldades, as discrepâncias,
os segredos do outro que a prova da vida revelaria. Mas agora não importa
o futuro, importa aquele momento. Os dedos entrelaçados, os sorrisos
mútuos, as alianças compradas com todo carinho. Os filhos (ela
queria quatro, teve três) e o futuro planejados, os presentes recebidos,
os votos de felicidades, a emoção contida para não borrar
a maquiagem, a benção recebida. Mas nada tão significante
nas fotos quanto o olhar de minha mãe, jamais visto em filme de princesas
e cinderelas, jamais interpretado por atriz alguma de Hollywood, jamais descrito
por poeta algum: o olhar de quem acreditava que seria feliz para sempre. Olhar
de noiva é assim, pelo menos foi o de minha mãe: um olhar de quem
acreditava muito no casamento (claro), no ser humano, no relacionamento, nos
sentimentos, no vínculo, no sentido inequívoco da existência,
na conspiração positiva do universo, no destino, no amor, em tudo.
Sua alma era um lago cristalino onde deslizavam patinhos sob uma luz suave de
primavera, com flores colorindo tudo ao redor. O chão da igreja era de
pedras preciosas e o altar aparecia envolto num arco-íris. Os filhos
seriam todos anjos, um mais lindo que o outro (sobre isto há evidências),
nenhuma crise abalaria tamanho comprometimento e desejo de estarem unidos. Meu
pai, claro, era a pessoa ideal. Esse olhar, obviamente, ignorava o futuro de
desentendimentos que levariam ao divórcio quinze anos depois (era pra
ser antes, mas esperaram as crianças crescerem). Mas dessa fase cinzenta
não quero falar. Quero voltar à alma, porque é nela que
a vida é sonhada e onde reunimos energia para buscar o que queremos.
Nessas fotos em preto e branco o que vi foi esse olhar e mais nada. Quase nada
supera o olhar de uma noiva. É nele que reside a esperança íntima
de um futuro feliz. É no olhar inocente, mas esperançoso de noiva
de minha mãe que me pergunto hoje sobre quais foram os sonhos que conseguimos
realizar como família e quais aqueles que ainda precisamos resgatar.
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