| Josué Mendonça |
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Pombo, mendigo e francesinho
(Josué Mendonça)
Gotículas d'água misturadas à areia escorriam por entre
as pedras desencontradas que formavam o chão da Praça Municipal.
Lama. Nas escadas do antigo Palácio do Governo, um homem de cara embrutecida,
encardida, sustentando um bigode preto e espetado, observava com um olhar morto
o movimento colorido dos turistas que por ali passavam. Meninos pediam esmolas
de dez ou vinte centavos para comer. Uma mulher na calçada, já
na esquina da rua Chile, puxava um peito murcho para dar de mamar ao filho grudento
e barrigudo. Acho que estava doente. Um velho baixinho, com poucos dentes, mas
risonho, vendia picolé. Próximo ao Elevador Lacerda uns hippies
vendiam seus brincos, colares e pulseiras. Fui até próximo à
lanchonete. Lá, vi uma italiana gorda, cheia de colares, de bochechas
coloridas revirando a bolsa à procura de algo que não consegui
descobrir o que era.. Ao lado, duas crianças: uma menina e um menino,
ambos francesinhos, branquinhos, loirinhos, de olhos azuis e bochechas rosadas
sorviam seus deliciosos sorvetes de cajá e morango, suponho. Do outro
lado, sentado, um casal de namorados. Num ato descuidado, a moça deixou
sua blusa manchar pelo sorvete. O namorado levantou-se rapidamente a fim de
tomar as providências necessárias para reparar o dano, pois a moça
ficara muito constrangida com aquela situação. Um menino pretinho,
pés no chão, cabelo enroladinho, dentes cheios de cárie,
olhos esbugalhados, acompanhava a cena, empinando a barriga para frente que
ajudava a sustentar a tabuleta dos queimados que vendia. Ali por perto, uma
jovem paulista bem vestida, branca, cabelos lisos, bolsa de couro, perfeitamente
maquiada, contava com suas unhas muito bem pintadas seus fios de cabelo enquanto
esperava o namorado voltar da lanchonete. Havia turistas de todas as nacionalidades.
Italianos, franceses, americanos, japoneses, argentinos, com também do
Brasil. A maioria carregando suas máquinas fotográficas para lá
e pra cá. Algumas senhoras, algumas, repito, olhavam pra aquelas crianças
pobres com olhares meio espantados. Aquelas criaturinhas eram muito diferentes
de seus netos... Escorei-me na mureta que dá de frente para a Baía
de Todos os Santos. Lá em baixo, os casarões velhos da Ladeira
da Montanha, o Mercado Modelo, os ônibus e as pessoas minúsculas.
De lá de cima tudo é minúsculo e podemos dominar aquelas
águas azuis e tranqüilas sempre lindas e alcançar com as
pálpebras a ilha de Itaparica. Soprava um vento ameno de final de tarde.
Olhei para a Câmara Municipal e lembrei de um movimento de estudantes
há uns dois anos atrás, que protestavam contra o aumento das passagens
de ônibus. Enquanto os policias caminhavam rumo à escadaria da
Câmara, os estudantes cantavam: "Marcha soldado cabeça de
papel, quem não marchar direito vai preso no quartel..." Mas não
demorei muito com essas lembranças. Logo, voltei a atenção
para o outro lado onde os pombos realizavam sua trajetória de sempre:
Vinham até o chão da praça comer depois subiam no cume
do antigo Palácio do Governo. Desciam e subiam. Mais à frente,
a praça Tomé de Souza. Lá o chafariz divertia as crianças.
Os velhos e os guardas arrastavam seus pés e barrigas. Sentada de pernas
cruzadas num banco e com um vestido cor-de-rosa desbotado, uma prostituta velha,
magricela e aparentemente faminta, tragava um cigarro fedorento. Quase no centro
da praça, o busto do bispo Sardinha. Toda vez que o vejo, me vem à
cabeça inevitavelmente a cena cruel de sua morte: há uma versão
da história que diz que o bispo fora vítima do canibalismo dos
índios. Até hoje não se sabe a verdadeira estória.
Mas o fato é que não há dia em que eu pise ali e não
me venha à mente a imagem do bispo sendo devorado pelos índios...Na
ladeira do pelourinho, sentados em frente à entrada da antiga e primeira
faculdade de medicina do Brasil, outros hippies estendiam suas toalhas de colares
e brincos no chão. Desci até a Fundação Casa de
Jorge Amado. Estava fechada. Voltei até a Praça Municipal e pude
contemplar as mesmas cenas de sempre: os turistas coloridos e deslumbrados com
as paisagens coloniais, as crianças pedindo moedas para comer, os francesinhos
de bochechas rosadas, o desfile das moçoilas do sul e sudeste, os casais
de namorados, os pombos subindo e descendo, os desempregados, os peitos murchos
das mulheres mendigas, pretos e velhos de olhares perdidos e minguantes e o
vento, o vento ameno da Praça que, de alguma forma misteriosa, conseguia
tudo harmonizar.
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