| Josué Mendonça |
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Liberdade e Aquário
(Josué Mendonça)
Os olhos pequeninos de Clarissa miravam os peixinhos no aquário que seu
pai lhe comprara de presente. Havia muitos, de diversas cores, de diversos tamanhos.
Era a primeira vez que via um aquário. Com tamanha curiosidade passou
a observar tudo. As bolinhas de ar que se formavam ali dentro, as pedrinhas
coloridas, as plantinhas, uma bela casinha, a luz que descia suavemente e espalhava-se
por toda a água. Se fosse um adulto que estivesse por ali, eu diria que
haveria um seqüestro de paz. Mas no caso da criança não.
Clarissa e os peixes compartilhavam paz, numa troca em que os dois mundinhos
se misturavam e se confundiam. Naquele silêncio total que só existia
ali e só ali poderia ser sentido, Clarissa contemplava estática
aquela forma de vida e, no reflexo de suas claras pupilas, era possível
ver peixinhos passeando pra lá e pra cá. Um vento intruso, mas
também cúmplice do silêncio, penetrava sorrateiramente através
de uma janela no quarto, levantando em ondas os finos cabelos pretos que lhe
desciam sobre a testa. O mundo agora se concentrava naquela interação
e a ela se resumia. Clarissa notava que os habitantes daquele mundo não
morriam afogados. Gostavam de nadar porque não paravam quietos. Às
vezes subiam até a superfície como que buscando ar para sobreviver.
Deslizavam na água de uma maneira que ela não entendia como. Não
tinham braços. Não tinham pernas. Como nadavam então? Alguns,
sentindo-se vigiados ou ameaçados, grudavam o rosto no vidro, arregalavam
olhos de detetive e pareciam querer comer justamente as pupilas da menina. Outros
pareciam estar beijando o vidro. Enquanto outros, de longe passavam. Clarissa
ouvira de seu pai que o correto seria colocar sempre pouca comida porque se
comessem demais morreriam. (Peixes são gulosos e não enxergam
limites em suas refeições). Aprendera também que não
deveria batucar no vidro nem com a ponta das unhas porque isso poderia deixá-los
surdos. A água deveria ser trocada de quando em quando e nunca deveriam
também misturar certas espécies para não se confrontassem.
Mas naqueles instantes Clarissa não pensava em regras. Apenas imaginava-se
peixe, pequenininha, com toda aquela habilidade para nadar, colorida ou transparente,
ágil. Num estalo de dedos mergulhou no aquário. Embora no início
sentisse uma certa estranheza a tudo que a envolvia, logo superou esse sentimento
e já não se importava porque agora era de fato um peixe e estava
no seu lugar. Aqueles seres, outrora estranhos, passaram a ser seus amigos e
com eles aprendia todos os mistérios da vida aquática, mesmo dentro
daquele recipiente minúsculo Por lá ficou durante vários
minutos, desbravando e divertindo-se. É verdade que a aventura fora excitante,
mas chegara um certo momento em que Clarissa sentira-se incomodada. O aquário,
embora fosse um lugar aparentemente divertido, passou agora a ser visto como
uma grande prisão. Clarissa não tinha liberdade para ir além
daquele espaço. Aquelas quatro paredes de vidro tornaram-se o limite
de sua existência. Ah... isso irritou profundamente a menina que decidiu
rapidamente voltar a ser o que era. Enxugou-se, ganhou novamente braços,
pernas e dedos, sentiu de volta os pés nos sapatos de boneca pretos,
o vento em sua franja, o oxigênio livre de água. A vida não
teria sentido sem liberdade, constatou a pequena Clarissa. Foi aí que
tomou uma decisão: a de segurar o aquário pelos lados, posicionar
sobre o vaso sanitário e garantir àquelas criaturinhas a plena
liberdade que lhes era devida.
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