| Josué Mendonça |
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Amendoim e Administração
(Josué Mendonça)
Eu acabara de sair da faculdade. No semáforo, o carro foi obrigado a
parar. Teria que aguardar alguns segundos. Já era um pouco tarde, por
volta de 22:20 hs. Como todas as vezes que saio da faculdade, meus pensamentos
flutuavam, entrelaçados a teorias e conceitos sobre organizações,
buscando sempre resposta sobre métodos mais eficientes e eficazes para
empreender e gerir empresas. Os pensamentos saltitavam entre cenário
econômico, modelos de gestão, oportunidades de negócio,
competitividade, tecnologias, governo, globalização.Nesses momentos
a racionalidade dominava e só via números, gráficos, resultado
de pesquisas. Nada era mais importante do que rentabilidade, desempenho, crescimento.
Como receber financiamento, controlar, organizar, planejar, criar? Entretanto,
em meio aqueles poucos segundos em que aguardávamos (eu e meu colega
que dirigia) a luz verde acender, um vulto fez minha cabeça girar para
a direita. Ainda bem que não era um fantasma nem um bandido, mas uma
menina de seus nove ou dez anos que se aproximava. O vidro estava levantado,
mas havia uma pequena brecha. Ela estava vendendo amendoins e me ofereceu, porém
eu quase que instintivamente fiz um gesto de não com a cabeça.
Não gosto de amendoim. O sinal abriu e seguimos em frente, mas como num
fenômeno sobrenatural de dissociação, meu espírito
ficou no semáforo. Meus pensamentos, agora desmontados, se desprenderam
no ar das idéias sobre lucro e produtividade e despencaram feito uma
taça de vidro no chão, esfarelando-se. A menina não teve
contato comigo, nem com a ponta dos dedos, mas sua figura, a da menina que vendia
amendoim a uma hora daquelas, naquela idade, sozinha num semáforo, fez
questão de penetrar em minha cabeça para brigar no pulso com idéias
bonitas e convencionais que teimavam em negar sua existência. Em seus
olhos pude ver a cor da fragilidade, do abandono, da privação
e ao mesmo tempo ver nos meus olhos e nos da sociedade a cor da insensibilidade,
da miopia, do egoísmo, da hipocrisia. O vidro do carro mais parecia um
muro de concreto que separava um corpo protegido e confortável de uma
criança entregue à sorte de um mundo duro e injusto. Talvez ela
estivesse com fome, talvez estivesse com frio, talvez estivesse doente. Meu
espírito ficou alguns instantes por lá, junto a ela em meio aqueles
carros, tentando vender amendoim, recebendo nãos, numa condição
não superior a miserável. Mas ele não poderia ficar muito
tempo por lá. Logo meu corpo chegaria em casa e precisaria dele de volta.
De volta aos meus projetos, à minha rotina, à normalidade da minha
vida.
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