| Josué Mendonça |
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Formiga na tela do monitor
(Josué Mendonça)
Maria Clara dorme no berço. Respiração profunda. Sonha
com o que? Uma formiga corre na tela de meu monitor. O que ela está fazendo
aqui? Ocorre que um dia ou outro quando olho pra um ser humano, qualquer um,
vejo duas células. Posso estar sentado numa lanchonete tomando um café
amargo, na rua, no ponto de ônibus ou na faculdade. Vejo um espermatozóide
e um óvulo. Os dois com instruções específicas e
geralmente infalíveis para organizar e desenvolver toda nossa estrutura
biológica, incluindo aí o cérebro, essa estrutura tão
complexa, (presente mesmo naqueles que acreditam que não o possuem ou
que deveriam ter uns neurônios a mais) e, então, num ato filosófico
espontâneo, concluo: "Deus está aí". Não
é o mesmo que dizer: "Aí está Deus". Nesse segundo
caso dá-se a impressão de que Deus foi "achado" ali,
como se estivesse perdido em algum outro lugar. Já no primeiro caso,
não. A idéia é: "Deus está presente aí
também." Esclarecido isso, segue que olho no fundo dos olhos daquela
criatura humana que se encontra na minha frente e expresso essa constatação
envolta numa bolha de emoção cheirando a um gesto incongruente
com o contexto, causando um reflexo de surpresa ou susto no meu interlocutor.-
O quê? - reage o colega com uma expressão de espanto.- É
o milagre da existência! - proclamo eu, entusiasmado.Nesse exato momento
de empolgação e convicção, meu colega volta os olhos
para o suco de cajá, puxa o canudo, olha pros lados e pensa: "será
que alguém tá vendo isso"?Eu rio, achando graça de
mim mesmo, ao mesmo tempo querendo transmitir sutilmente a imagem de intelectual.Minutos
depois, já não lembro dos espermatozóides, nem dos óvulos.
Não quero pensar em coisas que não vejo. Olhos pro chão
onde piso e vejo que continua duro e, portanto, firme. Olhos pras pessoas ao
meu redor que me olham com olhares que nunca irei interpretar e com sorrisos
educados. Olho novamente nos olhos da criatura humana com a qual me comunico
e vejo agora o milagre diante de mim, face a face, concreto e palpável.
Toco. Está diante de mim. Vejo novamente Deus.Agora a formiga volta a
andar na tela de meu monitor. Por que ela não sai daqui? A formiga que
vejo, não consigo entender. Outras coisas que não vejo, sinto
que são verdades dentro de mim.
Nota: Maria Clara é minha sobrinha de um ano e dois meses de vida.
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