| Josué Mendonça |
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A revolução do cabelo
(Josué Mendonça)
"Desde sempre, ao longo da história das civilizações,
a cabeleira tem representado um elemento fundamental da personalidade humana,
sustentáculo da beleza, do fascínio, da sedução
e, às vezes, até mesmo do poder e da força... e, nos dias
atuais, a mesma cabeleira conserva ainda um profundo valor simbólico..."
(brasil.calvizie.net)
Houve uma revolução no universo feminino concernente à
sua estética, comportamento, valores e estilo de vida devido ao um elemento
muito singular: o cabelo. Melhor dizendo, devido ao ato (ou processo, em alguns
casos) de escovar ou alisar os cabelos. É claro que poucos perceberam
ou comentaram sobre isso, mas o fato é que o ato de alisar os cabelos
e a descoberta de que as mulheres agora, quase todas, poderiam ter cabelos lisos,
provocou uma das maiores revoluções comportamentais de nosso século,
superando até mesmo o tão proclamado movimento feminista. Como
isso aconteceu? Vejamos:
Mariazinha era uma menina do interior da Bahia. Vivia subindo e descendo morros,
correndo atrás de vaca, subindo em pé de siriguela, carregando
lata d'água na cabeça, correndo descalça, atirando pedra
em lagartixa, tomando banho em açude. Como se pode perceber, era uma
pessoa de natureza simples, de comportamento não-industrializado, que
ignorava aspectos do mundo padronizado, civilizado e de consumo e lazer alienados
da sociedade moderna. Aos olhos de alguns preconceituosos, era semelhante ao
um ser primitivo, não aculturado, uma espécie em extinção.
Ocorreu que num certo dia claro em que quase não se viam nuvens no céu
("nuvens no céu" como efeito poético, considerando-se
que lá é o lugar onde geralmente residem), Patricinha, sua prima,
foi visitá-la. Chegou à sua casa, bateu à porta. Quem veio
atender foi sua mãe. Mariazinha não estava. Patricinha então
resolveu esperar sentada no sofá. A essa altura, a menina da cidade já
havia "fotografado" todo o ambiente da casa, ao qual ela atribuiu
rapidamente todos os adjetivos pejorativos que até então pertenciam
ao seu extenso vocabulário. Adjetivos pejorativos eram, aliás,
as palavras que ela assimilava com mais rapidez nas aulas de gramática.
Foi a partir dos adjetivos que Patricinha descobriu que as palavras tinham poder,
principalmente quando sentia de volta os efeitos de suas manifestações
verbais.
Mariazinha recebeu o recado, e veio correndo ladeira abaixo rumo ao encontro
da prima que não conhecia. Os cabelos grandes e soltos, encaracolados,
castanho-claros, balançavam ao vento em forma de ondas. Quando isso ocorria,
era comum seu Antônio do bar, um velho de dois séculos de existência,
deixar seu fumo cair e queimar a perna. As bolas de sinuca também nunca
acertavam e um ou outro picolé caia no chão.
Chegando à casa, o inevitável: como diria Darcy Ribeiro, houve
o que poderíamos chamar de "enfrentamento de mundos". Os cabelos
de Patricinha eram lisos, retos, uniformes, esticados, concentrados, numa harmonia
perfeita com a lei da gravidade. Já os de Mariazinha, como já
citados, eram livres, dados ao vento, ao sabor da natureza, do momento. Os olhos
de ambas ficaram por alguns instantes assim, mirados uns nos cabelos da outra,
como que tentando interpretar o sentido e direção de objeto deveras
estranho. Patricinha, amante de adjetivos pejorativos de rótulos de xampu,
tratou logo de classificar os cabelos da prima de "rebeldes, secos e quebradiços",
arrancando de Mariazinha uma respiração profunda, um rosto pálido
e olhos esbugalhados.
O fato é que no final das contas, Mariazinha foi passar uns dias na casa
da prima na cidade, onde conheceria o secador de cabelos. Isto iria mudar para
sempre sua vida. Nos meios sociais que passou a freqüentar, seus cabelos
naturais não eram mais vistos com aquela admiração de antes.
Patricinha, que era sempre sincera, logo chamou a prima no canto e disse que
ou ela mudava para sempre aqueles cabelos que lhe conferiam a imagem concreta
de bicho-do-mato ou não sairia mais com ela. Mariazinha, embora tenha
ficado magoada por algum tempo com tão arrogante declaração,
cedeu às pressões da prima e passou também a usar cabelos
que não contrariariam jamais a teoria de Newton. A partir daí,
observou-se uma mudança de comportamento que nenhuma teoria de aprendizagem
seria capaz jamais de prever. Maria, agora, não se chamava mais Maria
e sim Mary. As amizades, os lugares que passou a freqüentar, a forma de
se comunicar, os gostos e preferências, o estilo de andar e se vestir,
os programas de televisão, as revistas, os gestos e olhares, a inclinação
do nariz, tudo mudou. A cabeça havia mudado, agora nos dois sentidos
e Mariazinha, aliás, Mary, se descobria uma menina evoluída, antenada
a todas as modas, modismos e tendências.
A minha intenção, porém, nesse texto não é
fazer julgamento de valor, seja de comportamento ou de xampu. O aspecto relevante
- compreendamos - de toda esse processo de assimilação cultural
está no fato de que toda, TODA a mudança comportamental observada
teve origem absoluta no trabalho racional e sistemático de alisamento
do cabelo, acredite quem quiser. Não foi um processo de influências
paralelas e simultâneas do meio social que foram aos poucos moldando os
hábitos e atitudes de Mary. Definitivamente, não. O cabelo foi,
além do ponto de partida, a condição única, suficiente
e indispensável para que todas as outras mudanças pudessem ocorrer.
Diante de tais evidências se conclui que, caso houvesse durante algum
tempo uma privação dos instrumentos alisadores de cabelo, o mundo
se encontraria sob a ameaça de um verdadeiro retrocesso cultural, fragilizando
os alicerces da estética e dos valores de consumo modernos, cujo único
contraponto positivo previsto seria o aumento de marcações de
consultas em clínicas de apoio psicoterápico.
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