| Josué Mendonça |
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Goles de café
(Josué Mendonça)
Verônica sentou-se numa das poucas cadeiras que ficavam junto à
porta e pediu um café forte naquela manhã. Eu, à sua frente,
apenas a olhava, observando o movimento de sua garganta em cada gole que dava,
como se não houvesse nada mais interessante para se observar naquele
momento. Verônica alternava entre goles e expressões de sorriso
quase imperceptíveis, olhando pra todos os cantos e quase pra mim. Eu
viajava, como sempre viajei em situações de silêncio com
palavras engolidas misturadas a café. Na noite passada, eu pensava em
mim como matéria constituinte do universo, e me imaginava adubo pra plantas,
refeição pra bactéria ou qualquer coisa um tanto mais nobre...
Mas eu cria que não era apenas isso e tentava fazer com que Verônica
me enxergasse além disso. Ficava me imaginando como apenas alma e já
que dizem que os olhos são suas janelas eu, nessa condição,
punha meus cotovelos sobre as amplas janelas de meus olhos e acenava pra Verônica
cobrando dela um simples olhar que me percebesse. O tempo foi passando, o café
foi acabando e Verônica só tinha olhos pro colorido do mundo físico:
o fardamento vermelho dos garçons, o amarelo do suco de cajá da
mesa ao lado, e todas as outras cores que me roubavam a oportunidade de aparecer.
Eu, da janela, acenei com as mãos durante vários minutos quase
intermináveis e nada. Cansado, fui escorregando, escorregando até
que só restaram na janela pontas de dedos e cabelos. Verônica terminou
o café e decidiu olhar pro que restara de mim. Perguntou-me sorrindo
no que eu estava pensando durante aqueles minutos de silêncio.
Eu prontamente respondi :
- Bactérias.
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