| Josué Mendonça |
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E o pior é que é
(Josué Mendonça)
Seu Zé era um homem cético, pelo menos ao meu ver com relação
a eventos da natureza. Sabia colocar tijolos sobre tijolos em construções
mirabolantes e o fazia sempre com muito esmero. Era nordestino do "interior
brabo", mal levantava a cabeça, mal se pronunciava. Pra ele tudo
estava sempre bom. Tinha belas filhas e uma esposa meio "avexada".
Numa das vezes em que houve um eclipse lunar ele estava passando uns dias conosco.
Eu lhe disse que naquele dia, ou melhor, naquela noite a lua iria sumir através
do efeito do eclipse. Primeiro tive que explicar-lhe de maneira científica
e prolixa o significado desse evento. Depois quis convencê-lo de que de
fato iria ocorrer. Não acreditou. Não sei se por falta de compreensão,
por ser cético, ou por pirraça mesmo. Disse-me que queria ver
com os próprios olhos. A noite foi passando e eu e seu Zé aguardávamos
na varanda de casa aquele momento "mágico". O que eu achava
mais engraçado era que ele olhava pro céu como se estivesse aguardando
a volta do Messias ou o fim do mundo, tal era a expectativa e desconfiança
que se misturavam em seu olhar. Por mais que eu tentasse convencê-lo de
que aquilo se tratava apenas de um acontecimento natural, para ele seria no
mínimo sobrenatural.
O tempo foi passando e nada da lua sumir. Seu Zé olhava pra lua, olhava
pra mim. Olhava pra mim, olhava pra lua e, fazendo cara de "esse menino
quer me enrolar", aguardava pacientemente o momento em que eu dissesse
que tudo aquilo era uma brincadeira. Mas não tardou muito e a lua começou
ser "comida", conforme expressão por ele mesmo usada. Em alguns
minutos a lua sumiu e seu Zé, não dispensando sua frase típica,
pronunciou: "E o pior é que é!". Eu, sinceramente, esperava
de sua parte uma reação mais entusiasmada acompanhada de palavras
novas... Mas, na verdade, não foram as palavras que falaram, foi a cara
de bobo de seu Zé olhando pro céu, agora menos descrente da mágica
dos astros e do cosmo. Espalitava os dentes sentado num tamborete e sussurrava:
"E o pior é que é". Gostávamos dele pela
simplicidade de sua pessoa. Era um homem pacífico e trabalhador. Sempre
de bem com a vida. Foi ele quem construiu nossa casa em Caruaru.
A seu Zé, dedico essa lembrança.
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