| Josué Mendonça |
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Formigas no chão
(Josué Mendonça)
Um corpo sobre um prédio numa avenida. Uma fronteira. Em baixo, pra lás
e pra cás. Pés, tamancos, sapatos. Tudo em perfeita harmonia.
A vida em movimento, os pés em movimento, os carros em movimento. O vento,
a poeira, a luz, o mundo em movimento. Em cima, a alma presa, subjugada, não
sabia escapar, então tolerava. Em baixo o pipoqueiro, a criança
segurando o balão, o homem vendendo cartão. Em cima o silêncio
do vazio, a introspecção. Talvez ninguém o visse. Cada
qual com seus passos e pensamentos escrevendo circunstâncias de suas vidas,
em ritmos lentos ou rápidos. Cada um consigo ou com o outro, mas o corpo
só. Só de si, só da vida, só do mundo, só
das vozes, só dos toques. Um vento passou... Naquele instante não
haveria mais súplicas, nem conselhos, nem remédios, nem diálogos,
nem idéias. Um vento separava a cor da escuridão, o sonho da frustração,
a vontade da abdicação. Em baixo as formigas, um palhaço,
um cidadão. Em cima um corpo, despido de sentido, foragido da essência,
rejeitado pelo ego, massacrado pelas próprias mãos. Não
busca mais nada, não quer mais nada, nada lhe interessa, nada lhe desperta.
Só o ímpeto de "desexistir". Nesse instante tudo é
nada, e o nada seu tudo. Tudo já foi, e o mais nunca será. Tudo
nunca foi. Não é pesadelo, não é desespero, é
o frio de "desalmar-se". Não tem lágrimas, já
secou. Não tem volta, não tem jeito, não tem rota, não
tem porta. Uma nuvem apareceu, escureceu. Em baixo tudo acontece, tudo aborrece,
tudo contamina, tudo anima. Em cima, o corpo esquece que já foi gente,
que tem lembrança, que já andou. Nesse instante, minúsculo
instante, o som sumiu, a dor sumiu, o pensamento sumiu, o espírito sumiu.
O corpo agora não mais estático, inclina-se definitivamente para
a frente e... fronteira. Cruzou. Pluma no espaço. Gravidade. O tempo
parou. Cai, vai caindo, caindo, caindo... Um vento passou, uma nuvem passou,
o mundo parou, o instante se quebrou. Não tem como voltar, não
tem com ajudar, não tem como fazer. Um susto, um frio, um suspiro, último
suspiro, chão. Lá em baixo, sapatos, tamancos, formigas, palhaço,
homem vendendo cartão, menino segurando balão e um corpo abraçado
ao chão. Agora sem pulsação, sem rejeição,
sem conversação. Um corpo beijando o chão. Sangue no asfalto.
Corpo coberto com papelão.
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