Jorge Gomes da Silva |
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EXECUÇÃO TESTAMENTÁRIA
(Jorge Gomes da Silva)
O velho Justino assistiu com agrado à chegada dos filhos, algo que não
acontecia com frequência. Apoiou-se no cajado e avançou para os
três, que o beijaram à pressa como se ele não fosse o principal
motivo de interesse da comitiva. E não era, viria a confirmar depois.
Seguiu os filhos para o interior da casa onde os fez e os viu nascer, primeiro
o Joaquim. Era um primogénito digno desse nome, pesado e calmeirão.
Nisso nunca mudara, à altura das expectativas da falecida mãe,
sempre enorme e cheio de apetite para a comida que devorava e para o dinheiro
que só sabia gastar.
Depois viera a Filomena, a do meio, cara e feitio de uma tia que a família
renegara tempos atrás. Alzina, a tia, semeara a discórdia entre
os seus depois de se-lhe esgotarem as munições junto dos de fora.
Um dia foi longe demais. Baniram-na em uníssono numa véspera de
Natal, logo após a consoada. Olho da rua para nunca mais voltar, como
nas tribos pré-históricas. Mas a tia Alzina não definharia
à mercê dos predadores nem dos rigores da Natureza. No tempo certo
para uma hiena, seriam os outros a pagar o preço da sua ira e da sua
maldição. Mais tarde regressou, ressequida pela solidão,
mas morreria sozinha na mesma pouco tempo depois.
Para o velho Justino era um desgosto rever na filha essa cunhada indesejável,
mas sempre lhe desculpava cada uma das parecenças que herdara sem que
fosse culpa sua. E também desculpava simplesmente por ser ele o pai da
criatura.
O terceiro foi o António, esguio e reguila como o fora Justino nos seus
dias de infância na aldeia, até quase aos sete anos, quando começou
a trabalhar no campo e a sua juventude acabou. O Toninho, habilidoso na conversa
e determinado na acção, tinha veia de mercador. Acabaria dono
de uma imobiliária para a qual entrara como simples vendedor, acabado
de sair da tropa onde se desfizera dos laços com a província que
sempre desdenhou. Ninguém agarrava o rapaz, como ninguém agarraria
o Justino se em pequeno houvesse quem lhe deitasse uma mão. Esperto e
empreendedor, aprendia depressa e disso daria conta numa vida inteira a trabalhar.
Tinha vaidade naquele filho em particular, o mais chegado a si.
Quando entrou na cozinha deu com eles a inspeccionarem o estado do tecto e das
paredes. Quis acreditar que se preparavam para lhe oferecer uma ajuda, pintura
da casa mais algumas reparações sem obra pesada. Mas não
acreditou, tal a ânsia com que o trio media áreas com os olhos
e avaliava o imóvel com rigor profissional.
Nem perguntou o que se passava, a resposta logo chegou. Pediram-lhe para se
sentar, como se temessem algum desmaio ou pior que lhes deixasse uma corcunda
de remorsos e um funeral para deduzir nas contas.
O velho Justino mirou os filhos de soslaio, um de cada vez. Buscava um sinal
de esperança na hesitação que nenhum olhar lhe transmitiu.
Eram uns estranhos naquela hora, negócios primeiro e decisões
sérias para tomar, à revelia do velho, aos seus olhos um incapaz.
Antes que a oferta oportuna de um milionário se pudesse perder. Foi essa
a explicação que lhe forneceram, dois filhos com problemas financeiros
e um filho empenhado em ajudar os irmãos. Uma boa causa forjada para
camuflar uma terrível traição.
Vulnerável, Justino quase chorou enquanto os ouvia mas resistiu à
tentação. E nunca os hostilizou, apenas tentaria explicar as razões
sentimentais que o impediam de concordar assim de caras, as memórias
daquela casa e um resto curto de vida que Justino queria acabar naquele lugar.
As alegrias e a dor, partilhadas pelo clã, as brincadeiras e o amor que
nunca haviam faltado aos três, mesmo depois da mãe Agostinha perder
a luta com a tuberculose que a levou.
Filomena interrompeu a dissertação sem rodeios e perguntou-lhe
se ele preferia sabê-los desavindos, depois de ele fechar os olhos, quase
de certeza. E o pai arriscou perguntar-lhe porquê. E ela esclareceu que
havia o problema das partilhas, onde nunca se sabia o que poderia acontecer.
Ver os filhos divididos ou apenas adivinhar tal aberração, por
culpa da sua teimosia, isso seria coisa que o Justino nunca admitiria perspectivar.
Preço algum o justificaria e ao menos valia aos filhos numa aflição.
Fez que sim com a cabeça e aguardou o que viesse a seguir.
Sorrisos e palmadinhas nas costas, passou de imediato a ser o maior. Assim é
que se faz, diziam. E a seguir prometiam que algo se havia de arranjar, entre
todos. Dividiam-se por turnos, sugeriam, uma semana a cada um não custava
nada e assim passariam mais tempo juntos. Logo se veria e algo se havia de arranjar
e o Justino percebia que os seus dias acabariam despejados num lar de idosos,
mensalidade a repartir pelos três.
Nessa parte já não os ouvia, enfraquecido. Espinha partida num
golpe que também lhe rasgou o coração. Penitenciava-se
em silêncio por ter falhado em alguma etapa do caminho, por deixar os
filhos crescer sem conseguirem identificar uma injustiça camuflada como
um mal menor. Mas não vergava, queixo apoiado no bastão, e firme
encaixava no peito as farpas que extravasavam da sua melindrosa reunião
familiar, acima de tudo preocupado em nunca os deixar discutir. Tenham calma
que tudo se faz, pedia. E ela e eles abrandavam o tom, como se o cadáver
de Justino sentado naquela cadeira estivesse de facto sentado naquela cadeira
e merecesse um pouco mais de respeito e de contenção.
Acabariam por chegar a um acordo, firmado pelos três numa folha de papel
azul com linhas. Satisfeitos, sairam da casa. Combinaram os pormenores, a hora
de chegada ao cartório, a compra dos selos fiscais e outras importâncias
do tema que os congregara em torno de uma missão acabada de cumprir.
Depois deu-lhes a pressa outra vez, mas não se esqueceriam de recolher
a assinatura mal amanhada do Justino, numa folha branca com tudo por escrever.
Pediram-lhe o bilhete de identidade, "só por uns dias". Do
beijo de despedida nenhum dos três se lembraria. Adeus e depois a gente
diz coisas se Deus quiser.
Justino quedou-se à porta, mesmo até ao instante em que o pó
da serventia escondeu o automóvel topo de gama do mais novo. Só
depois entrou em casa, para pensar melhor a sua vida, enquanto confirmava que
a corda para atar a burra era a mais robusta que conseguiria arranjar assim
de repente, num domingo à tardinha.
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