A Garganta da Serpente
ajuda
 
 
  versão para impressãorecomende esta página
Jorge Gomes da Silva
saiba mais sobre o autor

ANDAM POR AÍ
(Jorge Gomes da Silva)

Existem dois mistérios modernos cujo paralelo não deixa de amedrontar. Partilham o nome e comungam a função, infectam-nos a existência a toda a hora. Porém, parece terem entrado no domínio obscuro da nomenclatura dos técnicos especializados, onde as coisas perdem um nome e passam a possuir uma designação genérica.
Para um leigo, é o fim. Assolado pela maleita, não consegue obter sequer um nome concreto para o bicho que o contaminou ou para a doença por ele provocada.

O virus, esse temido predador invisível, é uma hidra de duas cabeças que nos leva à força para a cama, pelos sintomas de doença ou pela crise de nervos subsequente à perda do conteúdo de um disco de computador.

O fenómeno é preocupante para quem goste de se preocupar. Imagine que no mesmo dia se vê atacado por uma doença da qual nunca ouvira falar e, em simultâneo, assiste incrédulo a um comportamento inusitado por parte do seu PC. O que se faz então?

Para nós, flores de estufa à mercê de uma legião infinda de demónios microscópicos, recorremos ao médico de clínica geral. Ele ouve, interroga, examina e começa a passar a receita. Medicamento tal, uma semana, de oito em oito horas, este é para três dias, sempre à refeição, ainda outro para estabilizar a mistura. Uma pequena fortuna, somando-lhe o custo por hora de uma consulta de cerca dez minutos num médico que nos atenda de urgência no seu consultório particular.

E nós atiramos a pergunta: mas afinal o que é que eu tenho, doutor?
Ele nem levanta o olhar e deixa-nos ainda mais aflitos, congelados de terror no submundo da hipocondria. Entredentes murmura ou resmunga um simples "isso é um vírus que anda por aí". Você afirma que lhe parece um princípio de pneumonia, a avaliar pelo febrão, e sua eminência levanta o olhar com desdém e em meia-dúzia de frases remete-nos para um canto, KO. O assunto fica arrumado e não há enciclopédia que lhe valha em casa, sem um nome para procurar entre milhões.

Para o computador, peça cara e valiosa do património de qualquer um, nem hesitamos: venha de imediato um técnico informático que perceba de software. Ele ouve enquanto digita, interroga enquanto digita, examina sem nunca parar de mexer no computador. Raramente nos deixa espaço de manobra para falsas esperanças ou ilusões. O nosso disco, o nosso inestimável conjunto de ficheiros mais o sofisticado programa de gestão têm que ser formatados e toca a instalar tudo outra vez.
Parece fácil, mas não é. Onde diabo se meteu a disquete com as declarações dos impostos. Que será feito daquele CD, aquele, está a ver? Aquele que nunca fez falta e agora disparou na cotação. Se é que ele alguma vez existiu, considerando a preguiça lusitana que sempre se alia a um inabalável e profundo sentimento de fé...

E nós atiramos a pergunta outra vez: mas afinal o que tem a máquina, ò amigo?

Ele enterra ainda mais o nariz no teclado e adivinhem o que ele diz. Isso é um virus que anda por aí, pois é. Depois encerra-se num mutismo que nos deixa a pensar que vale a pena falar com o tipo do banco, mais uma prestação, para comprar um equipamento novo. Ele faz as contas de cabeça, num ápice, e atinge-nos o plexo solar com uma verba que dá vontade de uma pessoa se benzer.

Você só questiona porque ouviu falar de um download capaz de ressuscitar um computador, mesmo que o monitor exiba o mesmo estado deplorável em que nos deixam a tosse constante, a febre frequente e um fluxo incontrolável de substâncias indesejadas nas fossas nasais, sem um final aprazado para o fim da agonia.

Sua omnisciente sapiência percorre-lhe o rosto com um olhar de estranheza e de preocupação, debita duas horas de terminologia XPTO e você, mais baralhado, arrepende-se de haver colocado tão obsoleta e desconfortável questão.

O assunto também fica arrumado porque ainda que saiba muito, quase tudo o que aprendeu a tanto custo com cursos e manuais já o génio diante de si optou por esquecer. Mais valia ficar calado para não repetir a figura de parvo, armado em sabichão. Tome lá o orçamento e agora o senhor é que vê. Confesso que não vejo nada, no receituário com a caligrafia indecifrável do clínico ou no print carregado de palavras, números ou combinações aleatórias das duas coisas, o papel que me explica porque irei pagar uma fortuna. A cegueira provém de diversos factores, é um sintoma natural. Será do choque de ficar acamado precisamente no fim de semana em que completaríamos aquele relatório, há dois meses por fazer, religiosamente guardado num daqueles ficheiros sagrados que o outro danado corrompeu. Ou ainda pior.

O fascínio desta era está ainda por se revelar em toda a sua extensão. A vida tornou-se numa caixinha de surpresas xpto, cheia de questões pertinentes ou decisivas do dia-a-dia às quais cada vez menos conseguimos responder. Desta misteriosa maneira de estar, a que nos deixa perplexos a todo o instante pelo rumo que o mundo tomou, resulta um atestado de ignorância para todos quantos se deixem ultrapassar na maratona da aprendizagem intensiva. Padecemos sem que alguém nos diga exactamente do quê. Pagamos a multidões de especialistas para resolverem problemas sem sabermos quais são. E continuamos a viver sem respostas, cara alegre e um sorriso que o sol nasceu outra vez, à mercê destas novidades contagiosas no subúrbio de uma sabedoria cada vez mais ao alcance de todos e contudo mais espartilhada em subdomínios, restritiva para a maioria.
Este fosso que nos separa dos que sabem aquilo que hoje compensa saber está sem dúvida cada vez mais intransponível, mais caro de sustentar e alastra-se pelas variáveis do quotidiano com a voracidade de uma infecção. Qualquer dia chamam-lhe ignorância.

A culpa, claro está, deve ser toda desses vírus que andam por aí.

652 visitas desde 11/08/2005

   
 

Terra de cegos

Execução testamentária

Fronteira de tempo

Andam por aí

Pontapé no vazio

Pergunta-me amanhã

Negócio da China

Juro que pagarás

Contas de sumir

Águas passadas

Refeição Ligeira

Figurante acidental

Extrema função

Cinco minutos ou mais

Escudados pela ilusão

Reality Show

Anticéptico


 

Copyright © 1999-2013 A Garganta da Serpente
Direitos reservados aos autores  •  Termos e condições  •  Fale Conosco www.gargantadaserpente.com