Jorge Gomes da Silva |
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PERGUNTA-ME AMANHÃ
(Jorge Gomes da Silva)
Apetecia-me perguntar-te apenas como estás. Mas leio-te a resposta no
olhar fugidio, na busca fingida de nada mais que uma saída daqui. Tens
pressa de prosseguir pelo caminho diário, à hora prevista, para
outro lado da vida, para o refúgio que te salva dos outros que reflectem
o algo de errado que sabes estar a acontecer. Agora. Comigo, amigo, que queria
apenas perguntar-te como vais, ou coisa assim.
O risco não vale a pena, lamento. Nem interessa como pretendes lá
chegar, a esse porto de abrigo estanque que te resguarda de um prazer antigo
que a vida transformou numa tortura, conversar com alguém. Comigo, talvez.
De vez em quando, ou menos até.
Como ficas é que interessa, mas continuo sem coragem para interrogações.
Lêem-se perguntas nos gestos nervosos e nos sorrisos de circunstância
em abundância que tentam em vão ocultar do teu rosto a firme intenção
de fugir deste instante no tempo, momento sem pretexto que não o simples
cruzar dos nossos percursos de hoje, coincidência.
Há muito que não te via e nada tenho sabido de ti, como antes
nada sabia, afinal. Foi o tempo que me ensinou, anos de aprendizagem, à
força, nas retinas de tantos que como tu calharam em sorte no cruzamento
de percursos, nas rotinas neuróticas e apressadas de cada um dos que
como eu questionaram a vontade comum de acelerar a passada, até qualquer
dia e pouco mais. O bastante para que descubramos em directo e em simultâneo
que os elos que outrora nos ligaram pingaram liquefeitos, como gotas de chuva
num asfalto de verão. Vaporização sazonal das emoções
de que acabamos por duvidar, pouco tempo passado sobre os dias em que os caminhos
paralelos não deixavam antever o embaraço futuro de um encontro
ocasional, sem nada de novo para dizer, excepto até depois. Ou logo se
vê.
Poderia perguntar-te, feitas as contas, como és. Não te identifico
na ficha pessoal que conservei não sei porquê, abandonada ao pó
do esquecimento, ao pé de uma recordação difusa. Como um
retrato instantâneo, daqueles onde figuram os sítios que recordamos
ao pormenor e as caras cujos nomes nos escapam na hora de as cumprimentar tanto
tempo depois. Uma eternidade, bem sei.
Sei que me apetecia perguntar-te como será amanhã, se o destino
nos confrontar de novo com a maçada do reencontro casual. Porém,
presumo que não conheças a resposta a essa delicada questão.
Ainda ontem, por vezes parece, um amanhã significava para nós
outro dia carregado de vontade de estarmos juntos outra vez. E agora é
o que se vê.
Talvez seja da idade, pensamos. Ou da ansiedade que nos consome, dia a dia,
outro igual a seguir. Cansamos a inocência e ela, esgotada, desfalece
prostrada no chão de granito que a congela e a impede de nos disfarçar
a morte da criança em nós. Adultos vulgares, com pressa e sem
jeito para procurar onde se pode ser feliz. Gostava de fazer-te essa pergunta,
acredita. O verdadeiro cerne da questão, julgo eu, neste interlúdio
da vida em que partilhamos uma estranha percepção do vazio. Cheios
de curiosidade, claro está, em conhecer a resposta do outro, de alguém
que nos agarre com força pelos ombros e nos sacuda e nos agite a consciência
a ponto de a arrancar à hibernação. Ou de a ressuscitar,
se defunta, com o choque da constatação. Um milagre no meio da
rua, aleluia. Alguém arriscaria, garantida a manutenção
da ignorância global por desistência da maioria, a pergunta sacramental.
O que fazes aqui, afinal?
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