A Garganta da Serpente
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Ingrid Miler Valiengo fale com o autor

Sem pé nem cabeça
(Ingrid Miler Valiengo)

Essa cozinha é gelada como seu coração. Teima em juntar seus cacos. A comida é farta como as promessas. A claridade ajuda tal como a certeza. Não quero gozar do seu tempero.

Quantos cigarros?

Não amanhece.

Não tenho mais coluna. Apenas Carlos Drummond Andrade:

" Implacável ponteiro dos segundos
Não, não quero este decassílabo
O que eu queria dizer era:
O segundo, não o tempo,
É implacável".

Nunca reparo nos segundos. O minuto é inútil, não trabalha direito.

Tenho os dedos trêmulos.

O cabelo está enrolado.

Olhos calmos, barriga coberta.

Sou parte, um quase.

O pão oferece abrigo. Está entre amigos. Reúnem-se para falar mal de mim:
- Aquela não fica sem escrever!
São seis bananas. Um cacho frio, perto dos limões (provarei-os puros?).

Que mãos são essas que juntam forças para esquentar os pés?

Que pernas acomodam o corpo?

Que pena ter contado casos!

Que lástima deixar a mente solta!

Que cheiro quis sentir ao fazer tal coisa?

Portanto, tenho nariz e pés gelados.

Mãos quentes, busto adormecido.

Coração vazio.

Não conte... nem mais comigo...

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Sem pé nem cabeça

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Por quem, por que o coração bate?

 

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