Uma questão de fidelidade...
(Ibernise M. Morais Silva)
Uma pessoa comum, vivendo uma vida comum, uma classe social comum... Mas com
a sexualidade à flor-da-pele... Lutava bravamente contra seus instintos,
no contraponto de uma educação dentro dos dogmas cristãos,
dentro dos princípios dos mores... Mas não encontrava uma forma
de ser fiel a estes princípios...
O amor em sua vida era forte, era chave-mestra de sua existência... Amava
cada ser, cada cenário, da natureza...Via em qualquer situação
uma condição para amar. Vivia surtada de amor e por isso mesmo
a fantasia lhe contaminava, e a transmutava aos seus maiores e mais profundos
fluxos de desejo...
Era muito difícil transportar todas aquelas torrentes para a sua realidade,
seu íntimo... O seu prazer era a sua realidade... Sua e de todos os seres
humanos, a primeira razão de viver... Vivia assim contemplando, sonhando...
Estava sempre entregue... Totalmente entregue, ao amor, a fantasia e ao desejo...
Ah! O prazer... Esta era a sua inesgotável fonte... Era feliz no faz-de-conta...
Mas destes sentimentos o desejo é justamente aquele que a todos atrai,
mas trai... É justamente através do desejo que os princípios
e convicções mais arraigadas, dançam... E como dançam...
Tudo isso considerando um contexto educacional dentro dos padrões de
uma vida saudável, normal. Ou melhor, uma vida sem sérios bloqueios
traumáticos, nem repúdios fanáticos... Condições
de sentimentos e sensações humanas, que logo cedo se formam, se
desenvolvem, em jogos e brincadeiras infantis...
O desejo surpreende a pobre psique (alma), a qual nunca está preparada
para conte-lo... O desejo é de... Prazer... Fonte inesgotável
de alegria, de felicidade. Sob quaisquer circunstâncias, busca-se o prazer...
É programa inconsciente... (Teoria das Pulsões, texto freudiano
" Além do Princípio do Prazer e Para Além do Princípio
do Prazer- 1920/1986 r). A capacidade de sentir prazer acompanha, o ser humano,
até o último suspiro e o torna prazeroso... No estoicismo, nas
últimas lembranças, nos pedidos e recomendações
altruístas...
Vale salientar, que o estoicismo é objeto do prazer sob condições
extremas ou não. É designação comum as doutrinas
dos filósofos gregos Zenão de Cício (340-264) e seus seguidores
Cleanto (Séc. III a. C.), Crisipo (280-208) e os romanos Epicleto (c.
55-c. 135) e Marco Aurélio (121-180), caracterizadas, sobretudo, pela
consideração do problema moral. A ataraxia é considerada
o ideal do sábio.Austeridade de caráter e impassividade em face
da dor e do infortúnio.
Lembrando Fernando Pessoa... "Se tinha horas de imensa euforia.... A maior
parte do tempo passava-o prostrado, numa ataraxia..."(João Gaspar
Simões, Vida e Obra de Fernando Pessoa, p. 650).Esta descrição
refere-se a um estado da alma, em que há equilíbrio e moderação
na escolha dos prazeres sensíveis e espirituais, atingindo um ideal supremo
de felicidade...
Após essas divagações sobre sua excelência o prazer...
Aquela pessoa comum, não conseguia fidelidade no trato com seus princípios
básicos de formação... Ia ao confessionário, falava
e falava... Das suas labaredas, de seus impulsos apaixonados... Até quem
a escutava se inquietava, e se impressionava, com tamanha voracidade pulsional...
Receitas... Orações, banhos... Muitos banhos. O mais importante
conselho que recebeu... "Case filha... Case-se com urgência..."
Casou-se... Mas no casamento não conseguiu ser suprida... Aquele seu
par não era tão par assim... Estava mais para ímpar...
Sofreu... Mas continuava a ser feliz, pois conhecia sua fonte inesgotável
de prazer. E novamente solitária, percorria o mesmo caminho de sonhos...
Amor a tudo e todos, fantasia -realidade concreta para quem crer- desejo alimentando,
nada mais, nada menos que o... Prazer.
O tempo foi passando sua maturidade chegou... Por mais que procurasse suprir
todo seu natural instinto, dentro de um contexto individual e abstrato, notara
que após quinze dias, perdia sua seletividade...
Quando menos esperava estava cedendo a olhares e prenúncios de carícias,
ainda que à distância, de qualquer um... Logo aqueles assédios
" encorajados" estariam marcando, com o fogo da paixão, a sua
pele, que ardia e ardia... Ficou em pânico ao identificar o perigo, agora
tudo estava fugindo ao seu controle no plano da realidade ao vivo e a cores...
A fidelidade aos seus princípios ( fidelidade a que?) e a fidelidade
a seu companheiro (fidelidade a quem?), estavam desmoronando sobre si mesma,
e os despojos deste desmoronamento, não eram outros, senão a sua
culpa, muito sentimento de culpa...
A pobre criatura se sentia, literalmente como uma criatura, desprovida dos
elementos humanizadores, cristãos que havia aprendido a respeitar...
Pensava, em vão, em todos os sacramentos recebidos, todos os aconselhamentos...
Mas sua biologia, sua pulsão primitiva irrompeu soberana... Após
quinze dias, perdia a seletividade e queria extravasar... Com quem?... Olhava
o parceiro a dormir tranqüilo... Ela de repente não era mais ela...
Entrava no closet vestia um macacão preto de couro sobre a pele nua,
delineando seu belo corpo. Atravessava o jardim, tirava a moto da garagem sem
barulho, e adiante acelerava fundo... Cabelos loiros, brilhantes, soltos ao
vento... E a luz do luar... Lua a testemunhar e a inspirar. Assistindo a tudo...
À distância...
Uma aliança quebrada... Uma alma despida do senso de fidelidade. Vitória
do desejo, o traidor daquela alma... De todas as almas... Pobres e prazerosas
almas...
(Núcleo Temático Filosófico, Indiara / GO, 12.05.2007)
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Publicado em: 27/05/2007 |
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