Amor Selvagem
(Ibernise M. Morais Silva)
Tivemos um dia difícil na lida da fazenda, crianças, cozinha,
comida para os animais, e tantas outras coisas do trabalho doméstico.
Senti por mais de uma vez o olhar fixo do meu companheiro...
Pensei... Não pode ser o que estou pensando... Estou muito desarrumada,
cabelo prezo arrepiado... Não, não poder ser, nem vou parar dar
uma arrumada... Continuei no apuro daquele dia... Não demorou ele me
chamou para ajudá-lo com uma estante que ele teimava em tirar do lugar...
Chamou dois peões e me pôs do seu lado, a roçar de leve
em mim, me olhar e sorrir... Pensei acho melhor eu ir dar uma arrumada, ele
tá de ouriço pro meu lado... Dei uma saída rápida,
ele chamou de novo...
Agora queria ir comigo procurar um galo que não se recolhera, pediu pra
levar uma cesta para o caso de encontrarmos alguns ovos no mato. Levei... Saímos
a procurar...
O sol baixava rapidinho num ocaso vermelhinho que prateava as águas,
frisadas do riacho, descendo nas curvas do gramado das pastagens. Se fosse na
praia do Jacaré, lá em João Pessoa (PB), não teria
dado tempo do trompetista tocar o Bolero de Ravel... 
Escureceu rápido, mas o luar daquele sertão não deixou
por menos, e sob aquela luz da lua "cupideira" continuamos a aquela
busca... Nada de galo, mas achamos ovos... Não soltei a tal cesta, mesmo
quando ele agitado sem esconder suas intenções já me segurava
pela mão me mostrando o melhor caminho...
De repente não dava para caminhar, era preciso pular, onde o riacho engrossava,
veio a hora do abraço... Ele me agarrou forte e muitos beijos rolaram...
Pulamos para o outro lado, as roupas molhadas, nada de frio, só calor,
muito calor... Do lugar já não saíamos, nem era possível
em meio a tantos aconchegos...
Ele aflito olhava em volta, querendo arrumar um lugar para acomodarmos as nossas
intenções, naquele momento já frenéticas, de nos
amar... Um cocho estava perto... Muito perto... Só um passo, já
estávamos dentro...
Um leito! Um provimento dos deuses... Cheirinho de grama molhada misturada com
nossos cheiros aumentava nosso ardor, nosso desejo... E nos amamos a luz do
luar... Passamos aquela noite entre aqueles animais... Um ventinho gostoso,
o calor daquele abraço, enrolados, nos aquecendo mutuamente...
Acordamos pela manhã com o tal galo, que tanto procuramos, cantando perto
da gente, e a cesta de ovos... Quebrados... Eu me arrumando disfarçando,
e ele falando com os empregados sobre os serviços do novo dia... Corri
para casa, passei um cafezinho, levei no curral para ele que recebeu com um
sorriso... Ah! Um sorriso daquele não vai dar pra esquecer...
(Indiara, GO - 04.03.2007)
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Publicado em: 10/04/2007 |
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