| Gustavo Dourado |
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A Metamorfose Ambulante de Raul Seixas
(Gustavo Dourado)
Raul Seixas deixou um vácuo gigantesco na música e na cultura
moderna, especialmente no propalado e combalido rock brasileiro, que com a morte
de Raul perdeu a sua vitalidade.. Raul era único, ímpar, sem igual,
inimitável..Criador fantástico, rebelde, instigante, precioso,
fenomenal. Um vulcão de idéias e ações inovadoras.
Roubou a cena da música pop com as performáticas Gita
e Ouro de Tolo, entre tantas outras. Quebrou os velhos tabus, rótulos,
regras e paradigmas impostos pelo caótico e anacrônico establishment
do capitalismo selvagem, desumano e cruel. Ah! Também pudera Raul
nascera a 10 mil anos atrás e não tinha nada nessa vida que ele
não sabia demais e como sabia. O homem era uma verdadeira zenciclopédia.
Além de tudo mais é filho da Bahia de Todos os Santos, Terra dos
Orixás, do Senhor do Bonfim e de São Jorge Amado.
Raul faz tanta falta para a música, assim como Glauber Rocha para o cinema.
Raul empolgava, sacudia, remexia e incrementava sonhos desejos e idéias.
Previu e cantou a Sociedade Alternativa preconizada por utopistas,
beatniks, hippies e poetas. Criticou a mídia, a moda e a sociedade de
consumo. Não perdoava a corrupção e as malandragens dos
políticos, cada vez mais presentes em nosso cotidiano. Viva! Viva! Viva
a Sociedade Alternativa, ecoava o saudoso vate do Apocalipse e da revelação
do Novo Eon.
Raul era reflexivo e analítico. Preocupavase com as causas da brasilidade,
a Amazônia, a fome, a miséria, o Nordeste, o subdesenvolvimento
e o entreguismo de nosso rico patrimônio pelas elites, aos poderosos estrangeiros.
Ele gritou em alto bom som para que todos ouvissem: A solução
é alugar o Brasil. Raul constatou o descaso que se tem com aquilo
que é nosso. Doaram nossas riquezas por moedas podres. Privatizaram o
nosso subsolo e leiloaram os nossos minérios a preço de banana.
Desviam nosso dinheiro para contas secretas na Suiça e nos escondidos
paraísos fiscais. Enquanto isso o povo passa fome e padece com a falta
de saúde, emprego e educação, sem falar de outras necessidades
básicas dos direitos humanos fundamentais.Tudo isso é imperdoável.
Se estivesse vivo e não o censurassem, Raul poria a boca no trombone,
no rádio, na tv, no megafone e onde fosse possível falar. Com
certeza, ele não compactuaria com os
desmandos da "república do mensalão",
dos mensalinhos e de tantos pecados capitais que prejudicam o nosso País.
Raul era irônico, crítico, satírico, autêntico. Ele
metia o dedo na ferida. Não via com bons olhos o comportamento duvidoso
de alguns papas da mídia e dos meios de comunicação
e principalmente a esperteza de alguns artistas da MPB. Questionava
com rigor os jabaculês e a imprensa chapa branca, domada e dominada pelo
toma lá da cá das grandes multigravadoras.
Raul Seixas fez história, marcou presença. Desarranjou a comportada
orquestra oficial. Literalmente Raul arrombou a festa. Provocou
uma tsunami e um terremoto no morno panorama cultural brasileiro dos anos 70
e 80. Raul Seixas transcendeu todos os ritmos.
Está no mesmo nível de Elvis Presley, John Lennon e Bob Dylan
. É um monstro sagrado da arte e da criação. Tinha em suas
raízes a magia dos cantadores repentistas, dos poetas cordelistas e dos
mais autênticos representantes da cultura pop. Misturou Luís Gonzaga
e Jackson do Pandeiro com Beatles e Rolling Stones. Mesclou a quintessência
do rock, com o repente, o rap, xote-xaxado-baião, num autêntico
forrobodó eletrônico.
Raul profetizou a Nova Era, o novo tempo e
reavivou o Apocalipse com a suas transcendentais revelações de
mago e pensador revolucionário. Não é à toa, que
Zé Ramalho, genial trovador do Nordeste Brasileiro, sempre foi um admirador
do mestre Raulzito e um dos melhores intérpretes da poetimusical Raulseixista.
Raul é um dínamo, um íma, um vate que nos ilumina, com
a sua verve cabalística, alquímica, transformadora e magistral.
Raul é pura poesia.
É uma megaláxia que transnavega pelas plagas inifineternas dos
Multiversos. Evoé Raul Seixas...
(60 anos do rei do rock tupiniquim - 28/06/2005)
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