| Emiriene Costa |
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O trem e seus olhares
(Emiriene Costa)
Adentro-me no trem e, inerte, observo os olhares daqueles que me cercam.
Olhares prateados, luminosos, tímidos, cansados, transparentes, todas
em suas singularidades.
Cada um com uma tonalidade diferente, que olha o mundo de uma forma talvez
incerta, às vezes certa (não sei)...
Uns observam o nada, outros um livro... Alguns olhares procuram mulheres sinuosas,
outros, as crianças. Eu procuro os olhares...Para tentar, quem sabe entendê-los,
admirá-los, traduzi-los.
Uns carregam dores, outros suas lembranças, seus problemas e até
os sonhos, e o que lhes difere é que cada um se volta para uma certa
direção...
Olhos deficientes, olhos estrelas, olhos de mães...Olhos que aquele
vagão carregava nos ombros, no mesmo compasso que passava nos seus trilhos...
Tentei por muito tempo não fitar o meu próprio olhar... Atenta
a tantas outras retinas que ali estavam, mas de repente deparei-me com o vidro
do trem, olhei-me, olhei no fundo daqueles meus olhos negros, que como muitos,
carregava tantas outras dores, tantos outros sonhos...
Avisto a próxima estação, em poucos minutos irei perder
alguns olhares, e minhas reflexões de uma viagem passageira, na certeza
de que outros olhos virão a passar pelos meus.
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