| Eloisa Helena Maranhão Lellis. |
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O Haiti é aqui, a Colômbia também devia ser aqui
(Eloisa Helena Maranhão Lellis.)
Para entender os problemas e buscas de soluções na Colômbia
de hoje, precisamos entender a exploração capitalista levada a
cabo pelo capital que se internacionalizava e o capitalismo industrial que se
expandia no século XIX.
Ninguém nega que os problemas da Colômbia, e da América
Latina como um todo, são provenientes da exploração capitalista,
que muda de formas, intensifica-se numas épocas, atenua-se em outras
- sejamos sinceros, não conheço muitas épocas atenuadas,
mas devem ter algumas, sim, poucas e rápidas - mas está sempre
presente, como uma craca de navio, como uma fuligem industrial nas paredes da
cidade, como abraço de tamanduá, que aperta e esmaga os ossos
e perfura e sangra...
Mas enquanto uns se curvam, dobram os joelhos, abaixam as cabeças, desarmam
suas mãos já tão sem armas, submetem-se, enchem templos
cristãos em busca de conforto e paz e justiça divina, naquela
postura que os insurretos de La Paz, já no início do século
XIX, denunciaram "temos guardado um silêncio bastante parecido
com a estupidez", enquanto uns se curvam, outros se rebelam, em levantes
nos campos e nas cidades, levantes operário-camponeses, e é nesse
contexto que surgem as FARC (Forças Armadas Revolucionárias da
Colômbia) e o ELN (Exército de Libertação Nacional,
segundo maior movimento armado revolucionário da Colômbia, depois
das FARC).
A história da Colômbia, como toda história da América
Latina, da África, do sul e sudeste asiáticos, enfim, do Terceiro
Mundo, é uma história de exploração covarde, de
expropriação de riquezas, de acumulação e concentração
do capital, de exclusão de imenso contingente da sociedade em benefício
de uma elite... Que em cada época traveste-se em nova roupagem, de proprietários
das minas, das plantações de tabaco, de anil, de quina, de café,
de bananas e outras frutas tropicais, proprietários das indústrias
e do sistema financeiro, enfim, proprietários dos meios de produção,
elite tanto internacional quanto nacional, explorando os indígenas e
seus descendentes, os negros e seus descendentes, os brancos pobres e seus descendentes,
e que somos nós, hoje, a não ser descendentes de índios,
negros e brancos pobres?
Mas a história da Colômbia é, além dessa história
de profunda violência contra o povo, uma história de luta de classes
acirrada, de levantes populares, de negação da submissão,
de rebeliões espontâneas e de organização de exércitos
revolucionários conscientes de seu papel nessa guerra do capital...
Uma história de rebeldias, de formação de bandos armados
no início do século, os bandidos sociais de que Hobsbawm falou,
sem um horizonte político claro, lançando-se à vingança
contra os exploradores, liderados por El Cóndor, Malasombra, Pielroja,
El Vampiro, Avenegra, El Terror del Llano, Tenente Gorila, esses nomes metem
medo, despertam-nos de nossos sonhos bons de crianças adormecidas e lançam-nos
no epicentro da violência a que estamos submetidos e até mesmo
acostumados, quem sabe nos fazendo piscar os olhos ainda sonolentos e forçá-los
a enxergar a realidade.
E lutar contra essa realidade funesta, realidade esquálida de morte e
desolação, como têm feito as FARC e o ELN.
Para não chegar ao paraíso que se anuncia ao mundo, o paraíso
neoliberal globalizado que nos prometem e oferecem:
"Se nos portarmos bem, está prometido, veremos todos as mesmas
imagens e ouviremos os mesmos sons e vestiremos as mesmas roupas e comeremos
os mesmos hambúrgueres e estaremos sós na mesma solidão
dentro das mesmas casas iguais de bairros iguais de cidades iguais onde respiraremos
o mesmo lixo e serviremos aos nossos automóveis com a mesma devoção
e obedeceremos às mesmas máquinas num mundo que será maravilhoso
para todo aquele que não tiver pernas nem pés nem asas nem raízes"
(Eduardo Galeano, "De pernas pro ar").
E quando vencerem, quando os exércitos revolucionários vencerem,
e esmagarem o capitalismo que nos esmaga diariamente, incansavelmente, então
os sinos já não dobrarão pelos trabalhadores, que sairemos
às ruas em grande apitaço, panelaço, buzinaço, retumbando
nossos tambores mestiços e tocando todos os sinos do continente em nosso
próprio benefício.
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