Raciocinemos com o coração
(Eduardo Selga)
Quando na infância, somos adestrados pelos nossos progenitores a supervalorizar
o raciocínio lógico em detrimento das emoções, tanto
mais se pertencem àquele grupo das não facilmente identificáveis.
Ou se miscigenadas a várias outras. Chorar diante do outro, por exemplo,
é fraqueza só tolerável se o autor das lágrimas
pertencer ao sexo feminino. E assim crescemos racionalistas e coerentes em excesso.
Enquadradinhos. Menosprezando o universo do sentimento e seus planetas habitados
por emoções as mais diversas, nem todas com rosto e cédula
de identidade.
Também nossas professoras primárias nos ensinam a asfixiar à
morte qualquer enxurrada de emoções impossíveis de nomear
que se aproxime, dado que, embora palavra signifique domínio a quem a
possua com volúpia, todo vocábulo ainda é impotente para
esclarecer certos sentimentos casados e não raro contraditórios
entre si do ponto de vista do nosso raciocínio cartesiano, que morre
de agonia caso não consiga apreender tudo. Classificar. Ou isso ou aquilo
ou ainda outra coisa diversa. Mas emoções de duas, três
cabeças, não pode. É ilógico. Que anarquia é
essa, afinal? Eis o motivo pelo qual não sabemos o que fazer quando por
alguém sentimos simultaneamente amizade e desejo; amor e inveja. Mais
ou menos como se perdidos à noite numa floresta densa.
Contudo, ainda que não seja resultado de planejamento, ainda que uns
se recusem a enxergar, um novo Homem está brotando sobre a Terra. E para
este, semelhante modelo não é mais cabível. Porque emoções
represadas, e aqui apenas repito palavras da medicina, emoções
represadas, nós as somatizamos. De modo que não dizer a quem precisa
ouvir com todas as letras aquele ódio nigérrimo ou o amor descabelado
pode resultar em azia, cefaléia, seborréia, diarréia, úlcera,
câncer... Mas, principalmente, neuroses as mais diversas. Por causa de
tanto freio imposto desde sempre, hoje somos uma humanidade melancólica
e emocionalmente perturbada. Não pode isso, muito menos aquilo. E, via
de regra, o que é permitido pelas normas sociais é frágil
em demasia para sossegar os hormônios, a adrenalina. Mais ou menos assim:
a Emoção quer porque quer experimentar o trem-fantasma ou a montanha-russa;
Mamãe Racionalidade nega alegando ser perigoso porque incógnito.
Ocorre uma insistência intolerável e, para calar a reclamação,
a Mamãe admite saboreie imenso pirulito colorido. Não resolve
o choro, apenas o esconde atrás dum sorriso temporário. Mas acalma.
E é tanto quanto basta.
Enquanto isso nas ruas do mundo, uma gente cujo psiquismo não conseguiu
assimilar tanta mordaça vagueia sem horizonte ou saúde mental.
Coração preso enlouquece. E não é metáfora.
Estou falando maluquice mesmo. E pensar que as emoções, quando
em turbilhão e bem direcionadas, podem se transformar em artes. Então,
leitor, ao se deparar com algum alienado mental, pense que muito provavelmente
você está diante de um Drumond perdido, algum Portinari sem chances
para se expressar. Um Villa Lobos emudecido.
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Publicado em: 07/08/2008 |
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