A Garganta da Serpente
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Sempre as mesmas máscaras
(Eduardo Selga)

Trago comigo, não de hoje, restrições ao caráter exclusivamente plebiscitário a que ficam reduzidos nossos processos eleitorais, visto que o holofote cinza da obscuridade está sempre acesso sobre os bastidores das campanhas e muita nuvem de fumaça perfumada se faz em torno dos candidatos mais relevantes. A conseqüência é a sonegação de informações básicas ao eleitor, para que ele possa realizar sua escolha não apenas se fundamentando em discursos coloridos, panfletários, mas também em dados fidedignos.

Hoje, votar em fulano ou sicrano pode traduzir-se em eleger o Doutor Atraso ou a Madame Corrupção. Porque há uma enorme penumbra dissimulada com muita purpurina, ambiente lesivo a tudo o que se possa imaginar em termos de futuro para a sociedade brasileira. Não raro, elegemos, entupidos de ardor cívico e boa-fé, uma imagem abstrata e sem consistência, o personagem interpretado pelo político durante o horário gratuito na TV.

Apesar, o mundo brasileiro continua e caminha. Ora para frente (e aí uns e outros se mordem de tanto ódio), ora para trás (e os mesmos escancaram sorriso que exibe dentes impecáveis e bolsos abarrotados). E a mim parece inegável o aprimoramento, lento e firme, do eleitor quando percebemos os critérios dos quais se utiliza para a escolha desse ou daquele candidato. Saudável fruto, azedo para uma parcela da sociedade, do exercício constante do voto. Custa-me crer, por exemplo, ainda estejamos numa infância política tal que voltemos a confiar em evidentes aventureiros ou reeleger políticos inoperantes como tantos do atual legislativo capixaba. Perdem a cada pleito espaços importantes os salvadores da pátria, os compradores de votos.

Porque nem tudo está como deveria, sobrevive com intensidade no imaginário popular uma lenda resistente ao enriquecimento gradual da consciência do eleitor: o pressuposto, nem sempre válido, de que juventude significa mudanças qualitativas no modo de exercitar o mandato; de que "cara nova" é igual à certeza de a sociedade ver satisfeitas suas várias privações.

Santa ilusão. Sempre realimentada em períodos eleitorais. É muita inocência supor estar na faixa etária do aspirante a cargo eletivo, ou na circunstância de ser calouro nas urnas, a chave para o bom uso do poder legislativo ou executivo. Essencial é saber, por detrás das máscaras e palavras estudadas, como o candidato enxerga a sociedade e suas carências. O "novo" pode ter um arcabouço ideológico do século XIX e representar apenas um modelo diferente de exercitar o mandato de forma inócua. Como expressiva parcela dos eleitos Brasil afora, desde sempre. Mais ainda: e o histórico do pretendente? Bem antes, quando sua candidatura inexistia, já demonstrava alguma preocupação com os destinos de sua comunidade? Caso contrário, poderá ser mais um a tentar cair de pára-quedas no dinheiro fácil. Com nossa cumplicidade e referendo.

  83 visitas desde 16/07/2008 Publicado em: 15/07/2008  

   
 

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