A Garganta da Serpente
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Brazil Colônia
(Eduardo Selga)

Com alguma variação referente à tática mais eficaz de ignorar a cultura brasileira, os três níveis do Executivo manuseiam o tema como se inexistisse, como se menor frente aos desafios "mais urgentes". Para os quais, parênteses, cadê as soluções efetivas? Só os velhos paliativos que rendem popularidade e cobiçados votos.

"Cultura" aqui não está sinônimo de "intelectualidade" e sim das expressões artísticas e comportamentais próprias dum povo. Mais específico, cito a divisão que o poder finge inexistir, ou seja: a "alta", a "baixa" cultura e as criações filhas do "povinho" e hoje usurpadas pela elite brasileira. Convertidas em negócio. Inclui-se na primeira, por exemplo, a música-produto das grandes gravadoras; na segunda, diria a literatura oral transmitida entre gerações, hoje quase morta e sobrevivendo enterrada nos raros cafundós onde Judas perdeu as botas e ainda não as encontrou; na terceira, o carnaval salta aos olhos. Em sua origem perseguido pela polícia; hoje espetáculo para inglês ver e exclamar "very good!", enquanto o povaréu, pai e mãe do samba desfilado sob um enredo, paga a fim de assisti-lo das piores arquibancadas.

Para simular interesse na cultura, o poder arma um circo: dá uma ajudazinha, quando teatro, cinema e outras modalidades inacessíveis aos assalariados. Mas o Maculelê, o Boi Pintadinho, o Tambor de Crioula, dentre muitos outros, confiam apenas na resistência do povo para manterem-se vivos. Não estou a dizer precisem de verbas oficiais. Esmolas ofendem o brasileiro que canta e dança e narra estórias. Porém, há que existir políticas sérias dos Executivos para que a alma popular resista à Medusa que é a sociedade contemporânea, cujo olhar enfeitiçado petrifica inocentes. Evidencia-se um desdém. E uma falecida toada ilustra esse "nem te ligo" do Poder e a teimosia da "baixa" cultura em continuar: "Eu de cá, você de lá, ribeirão passa no meio. Eu de cá dou um suspiro, você de lá nem tchum".

O silêncio é o estribilho dos responsáveis pelo setor. Cobrados, assoviam, acho que hoje vai chover, saem à francesa. E se pagássemos as melhores carpideiras do sertão para chorarem por seus espíritos públicos endurecidos, candidatos ao Inferno? Essa omissão é absolutamente intolerável quando percebemos estamos sendo contaminados por culturas outras. Mas aí temos a globalização, os humores de Dáblio Bush, nossas exportações... Sim, e por isso vamos nos prostituir, aceitar nossas festas juninas abandonem o vestuário caipira para propagandear a vestimenta dos cowboys norte-americanos? Vamos então permanecer inertes à iniciativa das escolas de inglês em festejar o tal Halloween? Se for o caso, que tal sacudir bandeirinhas do Tio Sam em todo 4 de julho?

País que não se orgulha do próprio caráter cultural perde a soberania na primeira esquina, como meninas que entregam a virgindade por ignorância. É transformado em colônia. Evitar o retrocesso, eis a tarefa dos políticos. Tão imensa quanto a fome, a segurança, o desemprego...

  60 visitas desde 23/06/2008 Publicado em: 23/06/2008  

   
 

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