A Garganta da Serpente
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Antítese
(Eduardo Selga)

Hoje, três ou quatro luas após a ruptura sem lágrimas mútuas ou ressentimentos visíveis, ainda dormem comigo dúvidas que insistem manterem-se em evidência. Razões da razão, quero crer. Terá mesmo sido o melhor caminho cada qual seguir o seu esburacado caminho? Alguma boa vontade... meio palmo de tolerância... Não teria sido possível pavimentar as estradas e ambas serem uma só? Onde foi viver aquele encanto, o imperativo físico e espiritual da presença, da voz, dos gestos do outro? Talvez a poesia, etérea excessivamente para um cotidiano que é prosa seca e chula, tenha preferido calar seus argumentos. Magoada e vencida durante um ensaio de convivência levado a cabo em pleno reinado de Momo, porém longe da arruaça característica. Em quatro dias dormindo e acordando sob o mesmo teto, o amor evaporou. Ou nunca existiu, na verdade? Sem as máscaras, das quais todos precisamos fazer uso para sobreviver, as conseqüências: saltaram aos olhos, tal qual Polichinelo, a percepção crua do outro; o malogro da esperança; a ruína de planos solidamente construídos nas terras movediças dum amor suposto, amor que gostaríamos fosse. Mas não resistimos à primeira intempérie. Fugimos, crianças assustadas, à careta que a vida real nos fez. Nós três. Eu, ela. E nossos antônimos.

Eu penumbra, ela claridade; eu caos, ela ordem; o subliminar, o evidente; o sentimento pulsando, o martelo da razão; segredos, confissão; a do discurso ordem subverter, narrativa princípio-meio-fim; mundo da lua, mundo da Terra; guardar as mágoas na gaveta, explodir; pluralidade, maniqueísmo; oblíquo, linha reta; o arrazoado, a prática; o razoável, o ótimo; a poeira da estrada, a estrada; quem sabe, indubitavelmente; o artístico, o cartesiano; correnteza, margem do rio; profundidade, superfície; legislar, o poder executivo; a interpretação que o ator confere ao texto, o cenário em que o (a) personagem está; artesanato, tecnologia; a mentira sincera do causo em torno duma fogueira, a mentira mentirosa dum Jornal Nacional; fleuma, ânsia; o neologismo, exclusivamente o dicionarizado; reticências, exclamação; prolixo, síntese; uma certa angústia, um entusiasmo incerto; adjetivos, verbos; pôr do sol, aurora; eu sempre procuro, ela já encontrou; disperso, concentração; espírito, carne e osso; Simbolismo, pós-modernidade; o espelho me aborrece, face a face; diálogo, Decálogo; matéria-prima, produto; metodologia, resultado; estória, moral da estória; hieróglifos, ela não se propõe a Champollion; descerimonioso, protocolar; a palavra escrita, a palavra falada; se eu, da música, a letra, ela a harmonia; orvalho, tempestade; desarvorado, pomar; instinto, cálculo; contradição, coerência; o indivíduo dissolvido na multidão sem rosto, a multidão sem rosto; eu me escondo, ela se descobre; fotografia que produz estremecimento estético, retratinho 3x4; precipício árido, Arcádia verdejante; nuvens de chumbo, céu de brigadeiro; pão com salame, estrogonofe; se eu Mefistófeles, ela não é Fausto; ausência, excesso; solidão, solidez; sono profundo, insônia; insânia, sensatez; cizânia, concórdia; essência, quintessência; indecência, recato; quintal, metrópole; polígono irregular, quadrado; anemia, sangüínea; democracia, intolerância; o pensamento livre, a catequese; mal-humor, juventude; complexificar o simples, reducionismo simplista; fragilidade confessa, fortaleza aparente; Teoria da Relatividade, pragmatismo; ironia, sensatez; imprevisível, roteiro; conteúdo, continente; exagero, equilíbrio; a eloqüência do silêncio, o discurso vazio; indisciplina, hierarquia militar.

À semente dum grande amor, que por efeito de miragem no asfalto cáustico da vida imaginávamos árvore já florescida e frutificada, faltou irrigação. Sequer o adubo merecido. Morreu, asfixia, quando estava quase broto. Morreu pela carência de sensibilidade mútua para enxergarmos o sentimento pedindo oxigênio, implorando por amor cuidem de mim que eu adulteço. Que eu mereço. Não houve leitura adequada do texto que estava sendo construído junto a um cenário no qual era fácil enxergar tempestades se formando no horizonte, porém muito facilmente evitáveis. Se habilidade houvesse. Agora é, daqui a pouco, cada qual em seu altar, rezarmos no sétimo dia e dizer que pena morreu tão jovem, ele... Viúvo e órfão nosso amor ficou de nós.

Acabou. Mas respostas definitivas eu não as tenho. Apenas conjecturas estéreis. Se ela renunciou a abdicar das supostas virtuoses de seu caráter magnífico, julguei incômodo, e até escusado, consertar em mim o que em seu julgamento era geringonça. Não seríamos mesmo, nós os dois somados, um. No máximo resultaríamos terceiro ente no qual duas individualidades viveriam engaioladas.

  98 visitas desde 17/06/2008 Publicado em: 16/06/2008  

   
 

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