A Garganta da Serpente
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Não pode ser
(Eduardo Selga)

Os sinais exteriores são mais ou menos inalteráveis: mau humor, olhar vazio e cheio de tédio. Pessoas assim têm por hábito abarrotar as melhores vagas no mercado de trabalho, as que melhor remuneram. No entanto, via de regra, odeiam a profissão escolhida. E só a exercem por causa do equilíbrio material. Apenas alguns admitem, mas o fato é que muitos gostariam mesmo é sobreviver de música, conquistar o pão diário a partir da literatura, pagar a escola das crianças com interpretações teatrais, tendo em mãos textos ilustres e desconhecidos. Mas qual! Seja por alternativa própria, seja por ter escancarado a guarda à vida para que ela fizesse a escolha, é fácil encontrá-los. Certamente no local de trabalho do caro leitor, existem profissionais que gostariam de estar executando tarefas outras e bem diversas das atuais.

Vivemos numa ordem social que, sem abscessos de consciência, nega aos seus filhos (ou vítimas?) a felicidade acaso caminhos muito específicos localizados em seu interior não forem religiosamente percorridos. Carreira ótima é aquela que Mister Mercado, com seus aparatos e salamaleques, propagandeia ser boa. Assim arquitetam-se as novas mãos-de-obra. Às favas Beltrano se ele imaginava secretamente elaborar um personagem único e original. E ainda queria ser feliz, o infeliz?! Ora, o importante é abastecer a demanda!

Não à toa a grande quantidade de melancólicos que andam soltos pelas metrópoles mundiais. Disfarçados, a maioria. Reconhecê-los é em três tempos: sempre macambúzios pelos cantos. Mas quando alguém faz a pergunta premiada ("está tudo bem?") instantaneamente eles armam um sorriso acrílico e mal interpretado e respondem de pronto algo próximo a "tudo ótimo, e você?" Na verdade, sabemos, estão péssimos, fora de suas posições, adoecendo aos poucos. Alguns chegam a criar para si um personagem adaptado à vida social, e se guardam a si mesmos em segredo absoluto. Numa gaveta úmida da existência. Praticamente nunca se expõem do modo que de fato são. Reprimenda alheia. Aquele anseio louco declamar Hesíodo à beira da praia em pleno sol de meio-dia ou no interior do ônibus? Melhor reprimir. O personagem acaba assumindo o corpo e vivendo uma vidinha burocrática, insossa, pálida. E a alma, não bastasse a cadeia da matéria, fica exilada. Alguns se permitem algemar às regras, há os que enlouquecem disfarçadamente (são os indivíduos normais na aparência), alguns se matam aos poucos (alcoolismo, por exemplo).

Mas em certos casos a amargura e a asfixia assumem proporções tais que a pessoa necessita encontrar escape. São aquelas que perseguem sua habilidade vocacional e não fazem uso de segundas personalidades. Autênticas. Sofrem o diabo por isso, diga-se. Vistas com ressalvas, rabos de olho. E o pior: podem chegar ao fim da vida sem conseguir do objetivo um décimo. Costumam morrer anônimas, sem nenhuma exposição ou livro, sem fazer parte duma História mais ampla do que a da sua própria família.

Terá sido uma vida assim inútil?

  136 visitas desde 13/05/2008 Publicado em: 13/05/2008  

   
 

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