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"Missa do Galo" e a catequese de um analfabeto intelectual
(Eduardo Selga)

Dentre tantas obras intelectuais que conheci desde quando a arte mostrou-me sua importância, certamente os textos de Machado de Assis, enquanto contista, exerceram sobre mim sólida influência. Textos que, muito além do simples encantamento diante de enredos e personagens regidos com rara maestria, foram em grande medida responsáveis (e apenas muitos anos após os primeiros contatos com o escritor tive consciência disso) pela arquitetura que hoje utilizo para elaborar minhas publicações pretensamente literárias. É óbvio, sob tal aspecto, mensurar até que ponto exato esse ou aquele escritor sussurra em nossos ouvidos não é tarefa das mais simples, e por muitos outros escritores sou apaixonado. E aqui gostaria de citar Lima Barreto, Gabriel Garcia Marques, Lígia Fagundes Telles, Murilo Mendes, Moacyr Scliar e Graciliano Ramos. Inevitavelmente há uma mesa-redonda de autores, brasileiros sobretudo, com os quais dialogo até mesmo sem ter consciência disso. O contista Machado, no entanto, evidencia-se. Basicamente em função das duas aulas que ele me deu: um bom texto ficcional é um caleidoscópio de interpretações; a forma, como na escultura, é mais importante que o conteúdo.

Em particular, refiro-me ao "Missa do Galo". Talvez contasse eu quinze anos de idade quando a citada obra veio-me às mãos. Foi um susto, houve uma surpresa. Primeiramente porque eu, já apaixonado pela ficção, carregava uma falsa certeza: todo conto ou romance teriam que ser escritos na terceira pessoa do discurso, se o autor pretendesse qualidade. Ou seja, ao narrador caberia, necessariamente, manter-se distante do fato narrado. Comparando, a mesma relação que há entre o cinegrafista e a cena a ser captada por ele. A "subversão" a tal "princípio estético", até a leitura de Machado, sempre me sugeria uma "literatura errada". O uso da primeira pessoa soava-me como uma carta, um artigo, ou outra forma literária não ficcional.

Outra cláusula pétrea de minhas leis particulares que "Missa do Galo" esfarelou foi o conceito de que o texto literário em prosa, para ser considerado bom, precisaria trazer embutido em si a "moral da história". O que implicaria no fato de a linguagem usada ser tanto quanto possível objetiva, no sentido de impedir mais de uma interpretação.

A primeira leitura do conto causou-me, além do susto e da surpresa, indignação. Mas que absurdo era aquele? Como seria possível aceitar passivamente que um escritor aplaudido e ovacionado pela crítica literária, um dos maiores autores brasileiros que ultrapassou a barreira do tempo e das gerações, idealizador da Academia Brasileira de Letras, como seria possível aceitar passivamente ele escrevesse algo que terminava sem concluir? Sim, porque o leitor de "Missa do Galo" se vê diante de interrogações: afinal, que diabos Machado de Assis pretendeu dizer? Conceição tentou de fato, usando a feminina arma da sutileza, seduzir o narrador-personagem? Ou nada disso, ela apenas necessitava de um bom interlocutor que a ouvisse e, conseqüência, anestesiasse um pouco da solidão de esposa respeitável, perfeitamente casada e que faz vistas grossas ao fato de ser vítima de adultério? Ou ainda, o diálogo que ela provocou e alimentou foi apenas para rechear uma plausível insônia? Inadmissível um mestre da literatura permitisse tantos espaços não preenchidos, tantas perguntas a serem respondidas! Eu estava convicto: Machado escrevera um conto incompleto. Teria faltado inspiração a ele para "fechar com chave de ouro" o texto? Eu e minhas tolices adolescentes, meus pré-conceitos.

Reli várias vezes, buscando pescar nuances esclarecedoras do enigma. Mas não havia nenhuma "moral da história" a ser encontrada. Havia, sim, uma moral na história, que fui assimilando com o tempo e com a leitura de diversos textos do mesmo autor e de também de outros: a ambigüidade da qual ele fez uso em "Missa do Galo", muito longe do pretensioso "defeito de fabricação" que eu quis encontrar, mostrou-se um recurso estilístico para transmitir o conteúdo. E o conteúdo, na citada obra, está muito além da trama em si: é o próprio estilo do ficcionista Machado.

E o que fazer com minha indignação inicial ao ler tamanha "barbaridade"? Metamorfoseá-la em aplausos foi a maneira que encontrei de pedir-lhe escusas pelo analfabetismo intelectual de então. Que "Missa do Galo" ajudou a extirpar.

  308 visitas desde 25/03/2008 Publicado em: 25/03/2008  

   
 

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