Tudo é número?
(Eduardo Selga)
Exercitar a filosofia pode ser tarefa encarada como, além de buscar
um sentido coerente para a vida por meio do pensamento lógico e matemático,
também a busca por um ponto de equilíbrio entre as relações
humanas, pitagoricamente analisando?
Ao menos a primeira pretensão, que abarca a exigência de a ciência
do pensamento ser um verdadeiro "Farol de Alexandria" para as outros
saberes e, portanto, colocar-se necessariamente num patamar superior a todos
eles, a mim me parece um objetivo quimérico. Por isso, creio, o lema
pitagórico "tudo é número", conceituando-o enquanto
expressão de todo o universo, soa-me exagerado e impróprio ao
fato de existirmos da forma como nos apresentamos no Planeta. A lógica
matemática, tal qual sustentada por Pitágoras e seus discípulos
(tanto os acousmáticos, a quem era permitido somente ouvir e aceitar
sem quaisquer interferências os ensinamentos, quanto os matemáticos,
indivíduos que tinham a privilégio de argumentar com o Mestre
de Samos e também ensinar aos acousmáticos), a lógica
matemática pleiteada por Pitágoras não é capaz de
equacionar as questões metafísicas inerentes à existência,
muito embora tenha tido semelhante anseio.
Quando digo "metafísica", a expressão, importante aqui
ressaltar, eu a utilizo no sentido da transcendência daquilo que é
perceptível aos nossos sentidos, o entendimento da porção
diáfana que há na existência humana. O que eu pergunto é:
como responder, utilizando-se dos pressupostos do Mestre de Samos, à
questão que nos acompanha desde sempre: qual o sentido da vida?
Pitágoras teve o mérito de conceber a matemática enquanto
ciência na qual a filosofia encontra guarida, e não simplesmente
um saber sustentado por conceitos no mais das vezes abstratos. Exatamente o
inverso do que hoje ocorre, certo modo, com a ciência dos números,
se considerarmos que modernamente o axioma tem amplo espaço na matemática.
E, sabemos, o axioma é uma proposição, uma hipótese
que carece de explicação lógica, mas que, entretanto, é
aceita como verdade pelo pensamento acadêmico. A partir dessa aceitação,
por assim dizer consensual, nasce a teoria, qualquer que seja ela no campo matemático.
Que passa a ser indubitavelmente comprovável tomando-se por base algo
que não o é. Ou seja, como se fosse possível o nascimento
de um filho sem a existência material da mãe, como se apenas a
imagem materna idealizada bastasse ao parto.
Segundo Pitágoras, não apenas a matemática, mas também
o próprio número, é concretude. Talvez o melhor exemplo
de semelhante assertiva seja a íntima relação que existe
entre a matemática e a seqüência regular de notas graves e
agudas em uma composição musical, a que se dá o nome de
ritmo. Aliás, ritmo é, onde quer que ele se manifeste, matemática
em sua natureza. Também o encontramos presente na prosódia de
uma determinada língua e nas artes em geral quando é harmoniosa
a correlação das partes várias que integram uma obra.
Tentando retomar a linha de raciocínio que é o esteio central
do presente trabalho, torno a argüir, usando outras palavras: o ser humano
é o resultado de sua estrutura orgânica matematicamente adicionada
ao pensamento racional, apenas? Não passamos de um bando disciplinado
de células organizadíssimas em funções especializadíssimas,
dentre elas a capacidade de imaginar e abstrair e raciocinar?
Alívio causaria a todos nós se a simplicidade fosse tamanha. Ocorre,
contudo, para alimentar nossa angústia (até porque viver é,
do meu ponto de vista, dentre outras definições, angustiar-se
continuamente, infinitamente), que somos muito mais que os limites da lógica
matemática; somos muito mais que conjecturas filosóficas. Na alma
de nossa espécie habita algo semelhante ao que eu chamaria de "certeza
intuitiva": a explicação para a nossa existência encontra-se
além do racionalismo. Mas, e ressaltar semelhante aspecto nunca é
excessivo, não estou aqui falando de superstição, dado
que a mesma estabelece relações de causa e efeito no que se refere
a comportamentos e fatos da vida entre elementos que não têm ligação
entre si. É a crença pela crença. Mas e o espírito?
Trata-se de mera abstração descabida, matéria pertencente
ao campo da religiosidade, exclusivamente?
É lícito supor a certeza em nós arraigada dessa realidade
extra-física enquanto mais uma etapa da evolução humana
e que, com o decorrer dos séculos, ela tende a paulatinamente desaparecer.
Afinal, para não retroceder à História Antiga, se a Idade
Média era superpovoada pelo pensamento mágico, em que a relação
homem-natureza só era satisfatoriamente explicável mediante a
interferência do elemento espiritual, até pelo fato do pensamento
científico não estar desenvolvido e também pela circunstância
de a própria filosofia ter priorizado questões tais como "fé"
e "Criação a partir do nada", se lá na Idade
Média o pensamento mágico dominava e nos tempos modernos e contemporâneos
já não existem esse predomínio em função
de contínuas descobertas científicas em todos os campos do conhecimento
humano, seria razoável supor que, a caminharmos nessa velocidade, inexistirá
espaço, num tempo pouco distante do atual, para todo o raciocínio
que não se prender às evidências científicas. Mas,
vislumbrando uma futura concretização dessa hipótese, para
onde iria a humanidade do Homem? Explicada única e exclusivamente pelas
fórmulas matemáticas? Perderíamos, meio ao gélido
universo numérico, a nossa essência abstrata e axiomática
que felizmente nos impede de responder a eterna pergunta: qual o sentido da
vida? Perderíamos a capacidade, que o próprio Pitágoras
experimentou, de afirmar que "nas noites calmas é possível
escutar o canto celestial" formado pela estrutura matemática do
universo. Mas não apenas matemática.
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Publicado em: 06/11/2007 |
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