A Garganta da Serpente
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O massacre do pensamento
(Eduardo Selga)

"Todos somos filhos de Deus, só não falamos a mesma língua"
(Ney Matogrosso e Pedro Luís & a Parede, no álbum "Vagabundo")

Uma das mais relevantes ferramentas de que o Homem pode lançar mão para fazer-se liberto das diversas formas de amarras e grilhões que a estrutura do poder político-econômico necessariamente impõe (como dominar a manada sem estabelecer um curral?), ainda que algumas sociedades insistam erguer, num competentíssimo jogo de cena, a bandeira de uma liberdade (como traduzir semelhante conceito no mundo atual, competitivo a ponto de aleijar a humanidade do Homem?) teoricamente ampla e inquestionável, quando de fato bastante restrita posto que vigiada mediante estruturas sociais e políticas muito requintadas, essa ferramenta, eu dizia, é o pensamento. Prerrogativa característica de nossa espécie.

Mas é necessário que ele, o pensamento, seja enraizado no raciocínio lógico, coerente e, sobretudo, crítico. Não por coincidência, os mesmos três paradigmas aos quais a ampla maioria das religiões, talvez todas, não se propõe, visto que a base ideológica delas sustenta-se em dogmas, valores aceitos como verdades que não brotaram do raciocínio analítico e sim de supostas revelações emanadas pela divindade e, por isso mesmo, indubitavelmente exatas. Quase como uma ciência, no sentido de que aquilo que está inquestionável é correto. Enquanto alguém não ergue a voz e prova o contrário. E não é outra característica, senão essa, a da impossibilidade prática da existência de interrogações ou de elas serem muito mal recebidas apesar da tolerância (em verdade não passa de um simulacro), que várias designações religiosas procuram transmitir em sua imagem, que faz desse instituto social excelente caminho de fuga para o indivíduo que sobrevive numa sociedade massacrante, cujos múltiplos e vigorosos tentáculos, ao abraçá-lo com força, sufocam-no com o intuito de não permitir o pensamento filosófico. No máximo um descolorido grito de protesto e dor, quase inaudível.

Ferocidade e velocidade. A primeira característica, que remonta às primeiras sociedade humanas organizadas de modo a que cada classe de indivíduos possuía funções bem nítidas, tem se acentuado sobremaneira em decorrência da segunda. E se o fato de ela se mostrar veloz pode ser classificado como um processo social até certo ponto recente, não o é o massacre. Em suas mais diversas modalidades.

A inibição da palavra, por exemplo, seja ela verbalizada ou escrita. Porque, desnecessário reafirmar, a palavra é, dentre outras definições, a expressão do pensamento. Ainda nos dias atuais (e talvez principalmente neles) os que não foram "ungidos" com a "graça" do conhecimento adquirido nos bancos escolares sentem-se sobremaneira aperreados (o regionalismo aqui é proposital: traduz bem o que pretendo dizer) quando são forçados a fazerem uso da palavra perante alguém reconhecidamente superior na escala hierárquica da pirâmide social. Situação inevitável e decorrente da vida numa sociedade estratificada e onde mesmo os encastelados precisam vez por outra sair de suas torres de marfim. Uma vez que não dominam a norma culta, "apenas" a oralidade, e essa característica é usada como mais um instrumento para diferenciar as classes sociais; uma vez que os indivíduos que se encontram nos degraus mais baixos da pirâmide acatam essa discriminação como algo natural ou até decorrente da vontade divina; uma vez que os indivíduos dos estratos superiores insistem, direta ou indiretamente, em ressaltar aos subalternos que eles, os eleitos por Deus, dominam as regras do "bom falar", aqueles como que emudecem. É o constrangimento provocado pelos instruídos sobre os que não alcançaram o nirvana semântico, vocabular e prosódico. Em "Deus e o Diabo na Terra do Sol", dos mais conhecidos e reconhecidos dentre a filmografia do cineasta brasileiro Glauber Rocha, há uma cena que ilustra o que está dito nessas linhas: quando o vaqueiro Manuel tenta argumentar com o seu patrão, o "coronel" Morais, acerca de seus direitos, é nítido o embaraço ao se perceber despossuído das palavras adequadas ao seu intento; ao ser compelido, pela circunstância de sentir-se lesado, a manifestar-se verbalmente em presença do poder corporificado em Morais e sua fala ponteada por berros autoritários. Gritos esses que decorrem do fato de que ele, um fazendeiro, apesar da posição social, não possui argumentos. Ao contrário, Manuel os possui às dúzias, porém encontra sérias dificuldades para expressá-los. É uma das formas de massacre a que me referi anteriormente. O resultado do "diálogo" (entre aspas porque entre dois indivíduos diferenciados numa sociedade desigual não há, verdadeiramente, diálogo, e sim monólogos a dois), o resultado, o assassinato do "coronel", é também seqüela dessa palavra que está na consciência de Manuel nas não se expressa verbalmente. Morais (o poder, o totem, o deus) se mostra um obstáculo intransponível ao rudimentar vaqueiro. E se a iniciativa da agressão partiu do "coronel", por não ter argumentos, ela foi revidada por Manuel não apenas como defesa da integridade física, mas também como retaliação a essa força que impede que a palavra se expresse livremente, sem as amarras constrangedoras das imposições sociais.

Essa força se impõe pelo medo. A palavra, enquanto tradução do pensamento livre, é tida e havida como um perigo iminente à estabilidade da ordem social que interessa a muito poucos, e nesse micro universo incluem-se boa parte dos que dominam a chamada norma culta, os que sabem se expressar "corretamente". E que possuem a consciência, com todas as letras, de que o ato de pensar, se não estiver submetido a regras e proibições e dogmas, se não existir o conceito de "pensar errado", é algo potencialmente perigoso. E aqui apelo para o lugar-comum muito usado por autores de livros de auto-ajuda, porém verdadeiro, que afirma: "palavra é poder". O autor de Casa-Grande & Senzala nos dá uma idéia bastante concreta dessas focinheiras que são impostas ao pensamento, ao afirmar que os meninos já nascidos na escravidão eram desde a mais tenra idade impiedosamente oprimidos pelos senhores (e pelas sinhás também, visto que elas eram submissas e dóceis ao patriarcado, porém a maioria concordava em gênero, número e grau com o sistema escravocrata) e essa opressão muitas vezes trazia, como um de seus cancros, a gagueira que essas crianças adquiriam. Porque a expressão da idéia era fortemente reprimida, mostrar-se por intermédio da palavra era visto quase que como o décimo primeiro pecado dos mandamentos bíblicos.

Entre os socialmente iguais, os que pertencem a um mesmo universo, sim, o diálogo e as idéias fluem sem obstáculos. Principalmente porque não há discordâncias profundas acerca da maioria das idéias que demandam maiores reflexões. Quando alguma cizânia há, não ultrapassa o nível do superficial, do detalhe, do método. Mas tudo desemboca no pensamento médio da classe social a que pertencem. Os eleitos do topo da pirâmide, por exemplo, discutem entre si com muita desenvoltura e sem agressividade assuntos como estrutura de poder, sociedade de classes, etc.; os carregadores das pedras que alargam cada vez mais a base dessa pirâmide, também conversam desenvoltos em sua oralidade, porém temas como a justeza do ordenado recebido, a saúde pública sempre precária, etc.

Se os mundos opostos não se tocam, não conversam entre si, em função de barreiras mis, não há, de fato, um universo no qual o pensamento possa habitar livremente.

  194 visitas desde 18/10/2007 Publicado em: 18/10/2007  

   
 

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