A Garganta da Serpente
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Tripalium
(Eduardo Selga)

"Quando o trabalho é um prazer a vida é bela. Porém, quando é imposto, a vida é uma escravidão."
(Máximo Gorki)

O mundo contemporâneo, num processo que acredito ser possível afirmar tenha se desencadeado muito antes da Revolução Industrial, possui como uma de suas características marcantes, porém quase invisível aos olhos nus, a ilusão. Muitos de nossos comportamentos são reflexos de algo muito maior do que aquilo que eles representam num primeiro e rápido diagnóstico. E determinados por uma intrincada estrutura sócio-político-econômica que faz com eles pareçam "naturais". Assim sendo, poucos de nós percebemos a farsa existente na propalada "liberdade de ir e vir", na medida em que existem barreiras sócio-culturais à tal locomoção; os brasileiros vivemos numa democracia de mentirinha, porquanto somente eleitoreira; a universidade no Brasil, detentora do ensino superior, e cuja função primeira deveria ser o fomento à pesquisas acerca de novas idéias, em larga medida reproduz o arcaico ("sempre mais do mesmo: não era isso que você queria ouvir?", como cantou numa de suas músicas a Legião Urbana) ou frutifica idéias inofensivas ao sistema estabelecido ou idéias benéficas ao Mister M (Mister Mercado), essa instituição do capitalismo que funciona como um grande mágico ilusionista, por ser uma das responsáveis pela percepção caolha que a maioria tem do mundo circundante, uma visão fantasiosa e fragmentada. Fantasiosa porque raramente se propõe a entender os fatos com suas implicações e subtextos; fragmentada porque os fatos sociais são vistos, no mais das vezes, de forma independente, compartimentada, como se os diversos vínculos inexistissem.

Idéias falsas. Ou melhor, idéias fabricadas por um sistema que consegue inoculá-las na corrente sangüínea do nosso cotidiano e que nos conduzem a uma realidade inverídica. Eis a areia movediça sobre a qual pisamos diuturnamente. A concepção de trabalho, por exemplo. Quem já não ouviu ou leu ao esgotamento a frase "o trabalho dignifica o homem"? Dignificar, é sabido, significa tornar digno. Ora, dignidade (cujos alguns sinônimos do vocábulo como "compostura" e "decência" ilustram bem a linha de raciocínio que pretendo aqui trilhar) é um conceito abstrato, eivado de pressupostos erigidos pelo status quo. O citado axioma diz de maneira muito persuasiva não merecer respeito de seus pares todo aquele infringente da regra social, "indiscutível" porquanto acatada por todos, que afirma aos quatro pontos cardeais todos os cidadãos precisam trabalhar. Necessariamente. Adjetivos pouco gentis como "vagabundo" e "parasita" logo passam a povoar o universo do indivíduo que se propuser ao atrevimento de não seguir a fila indiana e bovina que conduz ao matadouro.

Sim, matadouro. Poucos privilegiados conseguem, no transcurso de sua vida profissional, trabalhar naquilo que, em função de um talento específico, lhe cause prazer. A palavra "talento" aqui situada não necessariamente no sentido artístico, afinal é preciso lembrar que há os que possuem aptidão para o magistério, para o sacerdócio, etc. Temos, portanto, que a grande maioria dos anônimos desimportantes do mundo globalizado é, forçosamente, infeliz no trabalho. Quando há trabalho. Ainda que venham esses indivíduos a ser considerados dignos, segundo ordena o refrão popular expresso no parágrafo anterior. E a infelicidade é a morte da alma. Ou, ao menos, um sangramento no espírito. Difícil de estancar, diga-se. A maioria das pessoas troca sua inteligência, criatividade e músculos por uma cota mensal de tristeza, apelidada "salário". Que, lógico, é esquecida embaixo do tapete por diversos recursos disponíveis no mercado, tais como televisão e as drogas alucinógenas. E também pela medíocre postura conformista que dita ao trabalhador uma frase mais ou menos assim: "ah, está bom. Graças a Deus, dá para pagar as contas e me sustentar no mês".

Embora os fatos insistam em nos mostrar o inverso, ainda persiste no imaginário da população em geral a idéia de que por intermédio do trabalho árduo e honesto fatalmente atingir-se-á um futuro cintilante, com todas as necessidades materiais do trabalhador satisfeitas. Nada mais falacioso. O trabalho, palavra que deriva de tripalium, que em Latim Tardio dava nome a um instrumento de tortura, é uma das mais antigas instituições humanas e sempre foi associada às tarefas penosas, ao desgaste físico.

Desde os seus primórdios o sistema capitalista precisou da força produtiva, até porque ele se baseia na exploração do trabalho pelo capital, por intermédio do que Karl Marx denominou mais-valia, estrutura que remunera o trabalhador com um salário muito abaixo do valor do produto ou serviço produzido por ele. O salário então, para considerável parcela da sociedade, serve para ter-se a miragem de que não se está trabalhando gratuitamente ou como um escravo a troco de comida, bebida, teto, etc. e para que o dinheiro pago à guisa de remuneração sirva para que a roda do consumo gire, alimentando o sistema, e fazendo o dinheiro retornar às mãos dos capitalistas na forma de lucro. Sintomaticamente, o trabalhador quase nunca consegue amealhar capital ou bens materiais em quantidades expressivas. Portanto, é fantasiosa a idéia, muito bem vendida pelo capitalismo, de que o trabalho é o caminho para a estabilidade material. Uma observação aqui precisa ser feita: quanto menos muscular e mais intelectual é o trabalho, menos essas afirmações parecem válidas. Mas só parecem. Um jornalista com certo tempo de carreira, por exemplo, até consegue acumular bens. Contudo, sua remuneração não é, e dificilmente o será se trabalhar apenas com a retidão de caráter e sem se render à estrutura capitalista massacrante, equivalente ao valor real seu trabalho e às suas necessidades.

Entretanto, existirá alguma maneira de escapar à redoma na qual estamos colocados? Haverá uma nova contextura social em que o trabalho não seja fonte de sofrimento e desilusões? Comunismo? Foi assassinado ou suicidou-se; socialismo? Sempre se aboleta sob as asas do capital; social-democracia? Pretende algo inexeqüível, um tal "capitalismo humanizado". Conforme dito no início do presente texto, a ilusão está no comando. Esse macabro show de hipnose que nos conduz ao abismo da infelicidade para um perfeito funcionamento do sistema que por sua vez realimenta a hipnose parece não ter, nesses tempos contemporâneos no qual vivemos, adversários. Nenhum movimento nascido por iniciativa da sociedade ou organizações políticas que tenham proporções relevantes tem se mostrado antagonistas à altura. Talvez não o pretendam de fato. Inexiste uma proposta alternativa viável ao que está posto, não obstante o martírio a que ficamos submetidos todos. Muito antes pelo contrário: práticas que pareciam extintas no mundo (ou que mereciam estar), dado que somos uma "espécie altamente evoluída", retornam à baila. A escravidão, por exemplo. Além de ser corriqueira em certas partes do mundo, as vozes que se erguem contra pouco conseguem, exceto algum destaque na mídia. E às vezes o efeito imediatista da mídia é tudo quanto essas vozes almejam. Poucos, muito poucos, são os que se escandalizam de fato com as diversas situações claramente degradantes do Homem. Teria a humanidade vendido sua alma ao Diabo, entregando-se ao sistema, agora globalizado? É o que me parece, porque a escravidão, para ficar apenas nesse exemplo, é uma prática que tem muito em comum com o capitalismo. Afinal, estamos falando da exploração do trabalho de muitos em benefício de meia dúzia. O indivíduo que assiste a tudo isso está de braços cruzados porque, acredito, percebe: dentro do mundo no qual que ele (sobre) vive a escravidão tem lógica. Portanto, está tudo muito conforme a cartilha. Pois se ele também é escravo!... Escravo de um trabalho que ele odeia, que sua vocação rejeita. Claro, prefere não se enxergar de tal maneira, prefere quebrar o espelho que porventura coloquem à sua frente. Se puder pulverizá-lo, tanto melhor. Afinal, o capitalismo nos catequiza com suas normas de conduta que asseveram, meio a inúmeras outras coisas, é fundamental parecer, causar e impressão de ser. Independente se a aparência corresponde à realidade. Isso é mero detalhe. Portanto, um espelho da Madrasta da Branca de Neve é um inimigo em potencial que precisa ser eliminado o quanto antes. Ninguém quer enxergar o monstro em que foi transformado por causa do sistema vigente. O importante é a maquiagem que encobre as feridas da infelicidade estar bem produzida.

Curiosamente, outra ilusão está em voga, qual seja, celebridades, em geral do show business, em mais um espetáculo de hipnose social, "abraçando" causas sociais. Desde que existam por perto câmeras de TV e fotógrafos da Agência Reuthers, é lógico. Afinal, precisam parecer bonzinhos e preocupadíssimos com as injustiças que o capitalismo, do qual eles se alimentam fartamente, causa. Apenas mais um jogo de cena. Como se iniciativas individuais, ainda que sinceras (o que não é o caso dos pop stars), tivessem o poder de fechar as chagas e receitar um novo remédio para o câncer que nos corrói a todos.

  342 visitas desde 8/10/2007 Publicado em: 08/10/2007  

   
 

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