Desaconselho
(Eduardo Selga)
Filhos,
Ao inverso do que foi minha rotina durante muitos anos, já não
mais posso estar todos os dias com vocês, observando sempre admirado as
personalidades em processo de solidificação e tantas vezes misteriosas.
Foi feliz a soma dos genes meus com os maternos. Fui feliz. No entanto, estou
impedido de participar, ainda que coadjuvante, daqueles diálogos pincelados
duma ironia quase nunca perceptível num primeiro relance. Machadiniana
mesmo. Minha vida está outra, péssima. A pior das noites, esse
desterro do qual falo, apoderou-se de mim no exato dia em que fui convidado
a me retirar, residir noutra casa.
Por isso, atentem às palavras que ora escrevo. Não permitam, sob
pretexto nenhum, mesmo se o magnetismo estiver irresistível, ao micróbio
Amor-Paixão alojar-se em seus corações inexperientes, ainda
sem os necessários anticorpos. Gostaria acreditassem na advertência,
mesmo que, a olho nu, pareça asneira ou raciocínio pessimista
de quem enxerga a vida como fosse interminável pelourinho. A menos pretendam
sentir na carne os efeitos colaterais: taquicardia, quando o objeto da paixão
está presente, ou sua voz, via telefone; insônia, desagradável
companheira de cama se nem mesmo palavra ouvimos daquela pessoa, amor unilateral;
amnésia crônica, porque esquecemos o mundo teimoso a girar em nosso
entorno e ignoramos, em função dum sentimento que, flecha certeira,
nos transpassa e nos vira pelo avesso, ignoramos certos fatores realmente importantes
para nossa peregrinação na vida; cegueira: quem já sofreu
as febres do Amor-Paixão sabe que impossível conseguirmos enxergar
as mais escancaradas evidências que ousam opor-se ao encantamento pelo
outro; delírios, porquanto nosso raciocínio trabalha suas equações
tendo por premissa uma realidade inexistente, fictícia, miragem mesmo.
Real apenas aos neurônios do coração.
Muito maduros, inobstante a adolescência, vocês sabem: é
o meu amor ferido de morte, em carne viva, que procura, nestas linhas, mostrar
sua fratura exposta. É minha alma sangrando que aconselha. Ah, pai...
tenha a santa paciência... Não deixe o exagero lhe empurre, cair
no lodaçal da mágoa. Ela já tem o senhor cativo e repetindo
as ordens sussurradas em seus ouvidos surdos ao bom senso. Mas nem por isso,
filhos, a razão fugiu, arrepiou carreira. Façamos um trato nos
seguintes termos: analisem com carinho minhas palavras, excluam as tempestades
em copo d'água. No fim, verão tornados cruéis no horizonte.
Gostaria vê-los conduzindo suas vidas muito longe deles. Tenho medo, todavia.
Por estarem agora começando a entender a mecânica da vida, talvez
precisem sucumbir ao desastre da paixão unilateral para que meus argumentos
fiquem cristalinos.
Para encerrar esta carta, dois esclarecimentos: propositalmente generalizei
os infortúnios da paixão, mas a felicidade duradoura no amor,
embora possível, é quase utopia; em nenhum instante pretendi defender
a solidão enquanto companheira para toda uma vida. Mas creiam na certeza
originada do até nunca mais, dito pela mãe de vocês: paixão
só não dói quando correspondida, se existir outro par de
olhos igualmente deslumbrado. Só não dói enquanto as dores,
escondidas, não começam.
Despeço-me.
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Publicado em: 27/04/2007 |
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