Serrano e Queimado
(Eduardo Selga)
A lua cheia se fazia alta e princesa no céu da Matriz de Serra (igreja
na qual anualmente São Benedito, o santo negro, é reverenciado
pelos católicos do Município) quando, tomado pelo imponderável,
estacionei meus passos apressados de quem caminha à noite em busca do
descanso após a lida. E fiquei meio que enamorado, a observar o templo
religioso, como se a arquitetura ou o sino da torre quisessem dizer-me algo
importante. Então sentei num dos muitos bancos à espera de qualquer
coisa acontecer. E talvez tenha sido o vento noturno, próprio do outono,
que me fez perguntas e reflexões várias acerca de nossa história.
Respondi mentalmente a algumas, outras tantas ficaram a ver navios, mas uma
ponderação ainda permanece e gostaria dividi-la com os prezados
leitores. Afinal, perda de tempo não será, porque se de tudo nada
ou pouco se concluir, ao menos ficaremos com o sabor gostoso dum assunto que
exigirá dos mais curiosos alguma procura pela resposta.
Quantos de nós conhecemos bem a história serrana, não apenas
a contemporânea, mas também aquela que ocorreu ontem, ou seja,
a cento e cinqüenta e poucos anos atrás? Tal questionamento a mim
parece merecedor de mais do que palavras vagas ou o impiedoso desdém.
Afinal, é o passado uma das forças que nos molda o comportamento
no cotidiano presente. Está bem, concordo: o teor da última frase
é um lugar-comum já esgotado, haverão de dizer os leitores
mais exigentes do jornal. Penitencio-me, até. Mas não me abandonem
a leitura da crônica: é verdadeiro o que está escrito.
Seja, por exemplo, o quase anônimo episódio da Insurreição
do Queimado, ocorrido em 1849 por estas terras. Muito mais do que um adendo
entre parênteses no lamentável capítulo da escravidão
brasileira, as ruínas do Queimado (até quando resistirão
à falta de cuidados por parte dos que deveriam zelar por elas?) e a importância
histórica de boa parte de seus personagens insurretos conspiram para
lançar ao chão nosso pouco caso ou desconhecimento do passado.
Sejamos atentos: não haverá nas ruas, avenidas, nos bairros e
dentre os cidadãos serranos, milhares com a perspicácia do líder
Elisiário, ou com a fidelidade e coragem dum Chico Prego, a disposição
dum João da Viúva? Quem esses nomes? O leitor nunca ouviu falar?
Natural, a Serra sabe pouco de si mesma. Contudo, queira saber. Pesquisando
haverá surpresas ao descobrir: aquelas ruínas no distrito do Queimado
são mais do que esqueleto duma igreja construída por escravos;
que os serranos somos, em boa medida, descendentes desses homens e mulheres
valorosos que lutaram à morte pela liberdade.
Ora, outra coisa fazemos nós senão combater o bom combate, a batalha
diária por uma vida mais digna? O leitor certamente conhece vários
amigos e amigas que despertam com a cantoria dos galos porque trabalham e pelo
mesmo motivo dormem tão cedo quanto os pássaros. E o emprego,
no mais das vezes, distante da residência. Não raro, em outro município.
Portanto, hoje Queimado se repete sutilmente em nós naquilo que lhe é
imprescindível. Protagonizamos uma versão contemporânea
e pacífica da luta dos insurretos. Assim, pelo que somos e representamos,
a Serra é todo um povo que merece ser visto e tratado com respeito. Mas...
será o Benedito?! Ao invés disso o que vemos é a sombra
preconceituosa e mais ou menos escondida que sugere ser o Município uma
fábrica de criminosos e de gente pouco dada ao labor.
Eis tudo o que me soprou no ouvido em frente à Matriz o vento frio daquela
noite de outono. Tais reflexões são as que eu disse no início
gostaria de dividir contigo, caro leitor. O que acha?
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Publicado em: 30/05/2005 |
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