A Garganta da Serpente
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Quadrilhas organizadas
(Eduardo Selga)

Existe um plano em andamento muito mal intencionado: descaracterizar os "arraiás" em todo o Brasil por ocasião das festas juninas, que sempre avançam julho adentro.

As classes econômica e politicamente dominantes torcem o nariz, fazem caretas horrendas para toda e qualquer manifestação da cultura popular que ainda mantenha seu caráter genuíno, em função de enquadrar-se muito mal nos lucrativos moldes construídos pela indústria da cultura de massa. A mesma que convence a tantos que os chamados "grupos de pagode" cantam de fato o ritmo musical que está impresso nas capas de seus cd's ao invés da realidade: versão cavaquinho da música romântico-xaroposa conhecida pela alcunha de brega; a mesma que, nos segundos cadernos dos grandes jornais, imprime resumo de novela como cultura fosse; a mesma que empurra garganta abaixo a falsa idéia de que o country, no Brasil, é o sertanejo modernizado e não um invasor cultural.

Para essa indústria (termo, aliás, muito apropriado porque ela fabrica sim "produtos culturais", o mais das vezes descartáveis) a espontaneidade não coreografada sempre presente nos folguedos populares é apenas uma desordem impossível de se vender. Completamente inútil, portanto. Mas, pensando melhor... serve para que a plebe obtusa e sem qualquer finesse extravase suas emoções grosseiras. Os estudiosos do comportamento humano, essa gente incompreensível que prefere pesquisar a lucrar muito, classificam isso catarse. Que seja. Mas quem se importa? Afinal, dizem por aí, us povim inguinoranti tamém têm pricisão di ponhá pra fora us bichu intaladu nus grugumilhu. Sim, liberar sentimentos presos no inconsciente, um pouco de diversão. Mas só um pouco! O bastante para que qualquer revolta com as discrepâncias sociais, porventura engasgada, transforme-se em alegria. Como num processo alquímico. Esmolinha de felicidade pouca porque, quando demais, essa cambada não trabalha.

Entretanto, radicalismos apenas se interessantes à estratégia: a ojeriza por tudo o que exala do povo, pelo o que tem o cheiro nauseabundo de suor das classes "mais humildes" (lógico, é muito grosseira aos ouvidos sensíveis a palavra "pobre"), não é incondicional a ojeriza. É regida pelo termômetro da conveniência. Enquanto essa ou aquela manifestação cultural mantém-se comportada, quietinha com seu barulho desimportante, o mundo está em ordem. No entanto, se em função do próprio dinamismo inerente à sociedade, começa a revelar ares de relevância acima do tolerável, arrebanhando número cada vez maior de participantes, os que outrora amaldiçoavam à boca miúda ou exerciam a prática da indiferença, passam a morrer de amores. Desde criancinhas. Essa conversão filosófica jamais ocorre da noite para o dia, tampouco é reflexo dum suposto reconhecimento da amplitude alcançada por determinada manifestação da cultura popular. Lucros sorridentes em horizonte próximo é mola mestra de semelhante conduta, mãos dadas com o imperativo que as elites fino trato têm de redesenhar, conforme seus valores estéticos ditos elegantes, toda cultura manifesta que, oriunda dos indivíduos filhos da raiz desse modelo social consumista e desequilibrado, se agiganta. E, imenso, expõe valores plebeus forasteiros e por vezes incômodos à santa paz e ordem estabelecidas pelos de cima. Tal processo de adestramento é também sutil seqüestro de bens culturais, apropriação indébita.

Um exemplo clássico no Brasil é o carnaval carioca. Antes, lá nos idos de sua infância, uma manifestação umbilicalmente abraçada ao proletariado, apenas um fio tênue de organização. Sem júri profissional, ou sambódromos, ou sinhazinha Rede Globo sempre muito ao vivo, ou prêmios. O povo na rua, liberto de normas para desfile, brincando um enredo alinhavado e com largas margens para o improviso. Sob o olhar canino da polícia (sempre é aconselhável vigiar os passos do populacho). Fantasias sem paetês ou quaisquer outros brilhos sintéticos. Os poucos integrantes da bateria não viam utilidade numa rainha, rosto e corpo famosos na mídia, para "representá-los". À medida que o Reinado de Momo foi "evoluindo", as altas somas em dinheiro foram se entranhando para "modernizar", esse subterfúgio que esconde uma catequese social. Ao fim das contas, a periferia para se fazer presente no espetáculo, no desfile daquilo que um dia foi sua inalienável propriedade intelectual, tem que pagar caro. Outra opção é assistir passivamente das arquibancadas, sempre há alguns lugares a preços módicos e até existe permissão para levar cartazes que gritam coisas do tipo "filma nóis". Quem sabe, alguma sorte, a televisão enxerga? Claro, a visibilidade a partir dos pontos de arquibancada vendidos a "preços populares" não é lá essas coisas, afinal precisamos pensar nos turistas. O inglês precisa ver. E se divertir, e bater palmas, e gastar dólares. Bem como o norte-americano, o japonês, o europeu... Eis a apropriação indébita a que me referi.

Entristeçamo-nos. Nordeste, Brasil, segundo milésimo quarto ano do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo. Não de hoje, está em pleno e vitorioso curso a descaracterização dos tradicionais festejos juninos, conforme os moldes acima descritos. Nos municípios nordestinos onde as quadrilhas de São João pertencem à identidade cultural do povo e, conseqüentemente, dele são indissociáveis, o processo está avançado e avançando. Questão de tempo, por todo o território nacional veremos não mais a dança popular e sim uma substituta, uma intrusa que foi se chegando devagar e devagar assumiu rédeas. Coreógrafos profissionais, fantasias a preços comparáveis aos praticados pelas escolas de samba cariocas, jurados, enredo, quadrilhódromo (em Caruaru, Pernambuco)... Dançar "Cai, Cai Balão"? Nunca mais! Não é cult. É muito démodé, oxente! Agora as músicas são encomendadas, compostas a peso de ouro para cada uma das quase duzentas quadrilhas profissionais. Ou melhor: grupos de dança. Melhor ainda: empresas que, ávidas por lucro, realizaram uma operação plástica cujo intuito específico foi deformar um dos mais belos rostos do folclore brasileiro.

Onde estariam São João e seus compadres, Santo Antônio e São Pedro, que nem mesmo convocam a Mula-Sem-Cabeça pra módi fazê essa genti arrepiá carrera, causu di quê as quadria di verdadi num devi di morrê?


   
 

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