À REMETENTE
(Eduardo Selga)
Várias surpresas estavam ocultas no envelope que o velho Aminthas, com
toda a certeza que me é possível ter aos trinta e seis anos de
idade, o carteiro mais rabugento e carismático (como esses dois adjetivos
opostos podem habitar um mesmo indivíduo? Desconheço) que os Correios
já tiveram em seus quadros, entregou-me naquela manhã duma sexta-feira
acabrunhada porque nuvens tão escuras demais quanto hematomas no céu.
A correspondência, do tipo registrada, exigia minha assinatura num documento.
Eis o motivo pelo qual o carteiro ter sido obrigado a esperar-me migalha de
tempo qualquer coisa maior que cinco minutos, ao invés de simplesmente
abandonar o envelope na caixinha amarela instalada no portão. A espera,
para a ranzinzice incurável do velho Aminthas, deve ter sido a eternidade.
Nove horas se tanto, fui à varanda todo chinelos, pijamas e cabelos desgrenhados,
cumprimentei, meio sádico, o pobre homem. Certamente ele agredido com
minha "falta de modos". Não deu outra: fitou-me alto a baixo,
aquele olhar sombrancelhudo, muito cheio de palmatórias. Palavra não
disse, porquanto desnecessário. Estendeu-me o envelope como quem aponta
um trinta e oito. Minha vontade de rir eu amordacei à força, melhor
não escarnecer com os reumáticos conceitos de moralidade e bons
modos do senhor Aminthas.
Dos repentinos que saltaram da correspondência, embora talvez valesse
a pena enumerar todos, chamou-me a atenção o fato de nunca termos
tido contato pessoal ou telefônico e você, ainda assim, ter descoberto
o endereço da caverna onde hiberno do mundo e, revelando-se fã
dos meus trabalhosos filhos (contos e crônicas), escrever-me não
para dizer frivolidades ou intenções para lá de segundas,
mas sim para... filosofar!... Acredite, achei emocionante. Neste mundo arquitetado
sem a opinião de nós, a maioria, e que estimula a preguiça
em pensar, a conversa desnutrido-telegráfica pelo correio eletrônico,
você, minha amiga inesperada e ainda desconhecida (não anônima,
porém), a paciência típica de quem gosta do exercício
mental e de artífice que é manuscrever com cuidados gramaticais,
pede-me, como fosse o alguém mais abalizado para semelhante tarefa, você
solicita logo a mim opinião na forma duma pergunta: será que o
fado de todo amor marido-esposa é o irreversível coma?
Assim que meus olhos, até então impacientes com o imprevisto,
principiaram a correr as linhas recheadas com sua caligrafia inacreditavelmente
redondinha (rôo-me de inveja quando encontro letras assim, normalistas),
uma idéia desconfortável não apenas assuntou, autoconvidando-se,
bem como beijos em minha testa, lambisgóia demais: muito provavelmente
você, estranha amiga missivista, espera como resposta palavras intelectualíssimas,
mais do que laivos de erudição, quem sabe citações
latim, verbos de um ou outro pensador modernoso. Mas... lamento decepciona-la:
eis justamente aí assunto sobre o qual não possuo as necessárias
rédeas. Todavia, se a surpresa arregalar seus olhos é bobagem
das grandes: meu coração, débil mental ou analfabeto, jamais
aprendeu amar um outro, exceto platonicamente. Mas aí... nem mesmo é
amor: mera literatice procurando teto no mundo real. Por outro lado... você
se diz leitora convicta de minhas aflições, de minhas ficções,
de modo que seria muito pouco prudente e até indelicado deixa-la ansiosa
por um carteiro que não aparece nunca. E nesses brasis da vida onde cada
vez menos leitores que não compram livros apenas por modismo ou em função
de aquele ator charmoso ter aparecido na novela das oito horas com um exemplar
nas mãos, marisas como você estão escassas. Portanto, garimpemos
resposta. Promete terá paciência comigo? Antes de qualquer coisa,
venho por meio desta solicitar à sua justiça absolvição
incondicional se ela, a resposta, parecer-lhe algo troncha, astigmática,
osteoporose. Porque está a léguas de ser considerada teoria sociológica,
porquanto nenhum tratado científico foi lido, nenhuma pesquisa de campo
foi realizada. Inobstante, creio nem por isso devo enquadra-la como mera conjectura,
afinal que raios de escritor sou eu se ignoro solenemente os fatos ao redor?
Digamos, portanto, seja um aglomerado de idéias plausíveis.
Herança dos primeiros macacos mais espertinhos que, após uma tumultuada
assembléia geral com a categoria, entenderam por bem subir degrau na
escala evolutiva, não somos naturalmente monogâmicos. Assim fomos
moldados por obra antiqüíssima dum escultor que costuma desenhar
imagens desproporcionais, conhecido ele por convenção social.
Permitíssemos a natureza discursar escancaradamente em nossos corpos,
abstivéssemos de reprimir a livre circulação de certos
hormônios, às favas os códigos subliminares da sociedade,
nós, homens e mulheres, polígamos. Polígamos da silva.
Sem culpa, pecado, nem mesmo o conceito de traição entre cônjuges
e outros aos quais nos submetemos para fugir ao castigo: a sutil, paulatina,
hipócrita exclusão social. Acaso amamos amor proibido, escolhemos
não assumi-lo. Juízo e bom-senso é sofrer em silêncio
uma tortura cujo motivo os alheios nem mesmo podem cogitar. Mas desconheço
quem, ainda que unido a outro pelos sagrados laços do matrimônio,
não tenha alguma vez flagrado-se sentindo por um terceiro aquela coisa
estranha à qual, se dermos asas, transforma-se em amor,
Contudo, fugiu à lembrança do tal artista: inexiste cinzel que
consiga dar ao amor formas diversas às que lhe são inerentes.
Seria a mesma inutilidade de, digamos, pretender pintar cinza o arco-íris.
Ele, o amor, é como um romance que ainda não foi escrito: existe
sem ser criado, habita um universo paralelo à espera de solo fértil
para nascer; se a estória sai à caça dum escritor que consiga
traduzi-la, o amor sensual e faminto que existe nas almas humanas está
sempre à procura dum coração para nele se aninhar, com
um único propósito, qual seja, manter viva a espécie. Exatamente,
Marisa: o amor, em seus vários tons vermelhos (bem-querença, paixão
desembestada, namoro...), tudo não passa dum subterfúgio da natureza
para excitar desejo, o desejo sexo, o sexo descendência assegurada. Lógico,
isso pode ocorrer sem que ele esteja presente. Mas fica sem cor, sem cheiro,
sem graça. E os filhos, medíocres.
Desacralizemos o sentimento que teria unido Adão e Eva, pois. Tiremo-lo
do excesso de açúcar no qual poetas e demais versejadores xaroposos
o mergulharam. É um fenômeno tão típico da natureza
humana quanto, por exemplo, a maledicência. Sem pretender sublimar a inequívoca
implicação espiritual, é necessidade orgânica. Como
a lágrima, esse simultaneamente transbordamento da alma e lubrificante
do globo ocular. E, porque natural, não ocorre por obra do acaso: tem
um objetivo muito específico, já citado. Aí um detalhe
que muitos se recusam a admitir: filhos produzidos, missão cumprida.
Assim mesmo, matemático e calculista. Noves fora nada, fica extinto o
motivo da existência do amor matrimonial entre um homem e uma mulher,
essencialmente carne. Como qualquer estrela que um dia não mais será,
como a finitude a que condenadas as muitas buganvílias habitantes de
meu quintal, ele, amor homem-mulher, morre. Inapelavelmente. E o caminho do
enterro pode seguir duas estradas bem distintas: de crisálida a borboleta,
a transmutação em profunda e carinhosa amizade; ou o ódio
sem fronteiras. Enquanto isso, nas almas de cada membro do ex-casal, o sentimento
amor continua latente e possível, procurando novos parceiros. Porque
a natureza é um imenso laboratório e vive a pesquisar, uma busca
constante por indivíduos cada vez mais capazes de responder às
exigências do meio. Particularmente, creio ser escandalosa tolice, perda
de tempo: não temos solução, o Homem é uma falha
dela mesma, a nada sacrossanta natureza.
Por aqui, atenciosamente, vou ficando, Marisa. Ansioso em rever em poucos dias
o senhor Aminthas no portão, trazendo sua rabugice congênita e
um envelope para mim. Dentro, letras redondinhas, a resposta ao meu pedido de
início dum bom diálogo.
(16/08/2004)
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Publicado em: 30/08/2004 |
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